Domingo, 5 de Junho de 2005
Ut queant laxis - Dêem-me música

imagem em http://perso.wanadoo.fr/radio-retro/R-Saba-freudenstadt01.jpg

Há alguns séculos-rede que conheço a emissária desta cadeia. Foi ela quem quase me obrigou a facultar os comentários às visitas e a aceder a conversar em janelinha.
Há igualmente outros tantos séculos-rede que me preparo para escrever um post sobre música.
A minha relação com a música pauta-se pela total incapacidade em distinguir um sol de um ut. Mete dó.
Claro que sei da relação entre frequências e comprimentos de onda e das convenções respectivas. Mas isso de nada me serve.
Como se ao olhar para um azul não soubesse que nome dar-lhe. A verdade é que não distingo as notas musicais.
Não me gabo disso. Nem com a sobranceria ridícula dos que se dizem orgulhosamente avessos à Matemática nem com a suposta fleuma dos que se vêem compensados por terem outros dons.
Não me gabo. Tenho pena. Mas suponho que não está ao meu alcance dotar-me das capacidades para tal. Resigno-me, é só.
A verdade é que a minha relação com a música foi marcada em grande parte pela sua ausência.
Ausência que se traduzia por um aparelho de rádio avariado e pela inexistência de fonógrafos lá em casa.
A música resumia-se em grande parte ao que se extraía da televisão e às noites em que adormecia embalado pelas vozes avinhadas da taberna, nas traseiras da casa alentejana.
Mas há um dia que guardo na memória.
Num hotel de província, num lusco-fusco da minha meninice, vindo talvez do bar ou da rua, ouvi uma embaladora música ao fim do corredor. Como se um flautista me chamasse, lá fui. Na pequena sala, um aparelho semelhante ao lá de casa e um homem sentado placidamente ao escuro. Fiquei à porta, temendo importuná-lo, mais do que isso temendo importunar a música.
Não faço ideia que peça era. Suponho que a sintonia era a do Programa 2.
Uns tempos depois, resolvi mandar o dito aparelho à revisão. Veio de lá como novo. Depois disso, exigi um gira-discos. Mais tarde, um gravador de cassettes. Pouco depois, um rádio portátil.
Muni-me assim do essencial à experiência. Não julgo que tenha, no entanto, qualquer importância este atraso na minha incapacidade.
Desde então, como quase em tudo na vida, não sou capaz de descodificar os meus critérios. Mas no caso da música tenho a quase plena consciência de que nunca procurei mais do que me era casualmente oferecido.
Recordo-me bem do som das juke-boxes algarvias dos meados dos anos sessenta. Das doses sucessivas de Roberto Carlos. Das grandes orquestras que o meu tio apresentava no leitor de cartuchos do carro. Dos inúmeros discos de 78 r.p.m. que ele possuía e das capas amareladas de onde os tirava. Dos sons que gravava num já então velho Grundig de bobines.
De tudo isso me recordo.
Um destes dias, meti-me a reconstruir essa banda sonora. A que desde esse tempo me acompanhou.
Assim sendo, querida Lili, a resposta só pode ser esta:

Volume total de arquivos musicais no meu computador:
2,60 GB (2.797.338.624 bytes) - é o que ele diz e eu acredito

O último CD que comprei foi:
O único CD que comprei, na esperança de vir a ter um aparelho para os ler (nessa época nem sei se já havia um PC cá em casa) foi aquela reedição parcial dos famosos discos de capa de serapilheira, da recolha de Michel Giacometti.

Última música capturada:
"Minha terra tem" do grupo coral de Vila Nova de Milfontes - tirada daqui

Musica que estou ouvindo neste momento:
Um CD de música grega (candiana, para ser mais preciso) do qual esperava extrair uma faixa para enviar à minha amiga.

Cinco músicas que andei escutando bastante, nestes últimos dias:
Todas aquelas que fazem parte das playlists da TSF e da Antena 1. É um sinal dos tempos que estas playlists sejam cada vez mais curtas.

Música objeto do desejo:
"O cigano do amor" claro. Pelas razões expostas aqui e aqui.

Quanto ao destino da cadeia, decidi dar carta branca a quem a quiser.
Aqui estão ambas as três.



Basta que digam que vão daqui.


por MCV às 23:59
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ANO XIV


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