Sexta-feira, 3 de Junho de 2005
Invenções
Major Pimenta, aqui não se inventa nada! - o Coronel começou assim a sua prelecção singular ao recém-chegado sub-comandante.
Depois do eco das suas últimas palavras se ter reflectido como um brilho nos olhos do subordinado, o Coronel abriu a caixa dos charutos com o mesmo gesto com que daria uma voz de à vontade.
Quando o Major fechou a porta atrás de si, o Coronel recostou-se na cadeira.

Pimenta, você não se esqueça de frisar ao Castro que não se inventa nada!
Não se preocupe, meu Coronel, suspeito que ele não seria mesmo capaz de o fazer.
Ok, ok! Olho no Castro! Olho no Castro!

Quando o Coronel Pimenta mandou entrar o Major Castro no seu gabinete e repetiu pela segunda vez em muitos anos ao seu subordinado que não devia inventar nada, passou em revista todos os imprevistos que enfrentara desde que entrara naquele gabinete pela primeira vez como sub-comandante e apreciara a inteligência do então Coronel Seabra.
Nesses anos, inventara-se e muito. Umas vezes ambos, outras um deles, algumas destas em desacordo mas na maior parte em concórdia.
Agora, o Coronel Pimenta tinha a certeza de que o seu sub-comandante jamais arriscaria inventar.
Frisou-lhe que queria ter conhecimento de todos os imprevistos que ocorressem na sua ausência.
A continência do outro assegurou-o pelo menos nesse aspecto.

Quando anos depois, o Coronel Castro se sentou na cadeira e chamou o seu sub-comandante, disse-lhe claramente que ali não se inventava nada. Nada mesmo!
Depois pegou no manual e releu-o mais uma vez.


por MCV às 14:33
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2 comentários:
De Anónimo a 5 de Junho de 2005 às 12:19
Eu acho que é aqui que se traça a linha (uma das) entre comandantes e comandados. O "Não se inventa nada" essencial mas essencialmente infringível. Uns quantos fazem as regras, todos os outros devem cumpri-las. Abraço
Manuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 5 de Junho de 2005 às 05:40
Não sei bem porquê, mas esta tua sucessão fez-me recordar a minha mãe quando nos pegava ao colo em pequenos, meio adormecidos e nos sussurrava os adjectivos mais absurdos e lindos. Os mesmos que, agora os meus miúdos, ouvem de mim. Haverá ou não invenção?riacho
(http://alfa-e-omega.blogspot.com)
(mailto:riacho@gmail.com)


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