Segunda-feira, 23 de Maio de 2005
O carro do poeta
Não fora ter estado à espera de um velho amigo debaixo de uma árvore de folha caduca, nas cercanias do lugar onde os factos ocorreram e não me lembraria do carro do poeta.
Uma coisa é certa - era Outono. E era já noite escura. E eu estava mais de enfermeiro do que de amante. Coisas da mudança de estação. Primeiros frios.
Foi assim num lusco-fusco artificial que ouvi o estrondo. Qualquer coisa me disse que a noite ia ser menos calma do que esperavam uma mulher febril e um homem falando com voz suave - sim, também sei suavizar as sílabas quando é caso disso.
Foi no teu carro - era a perspectiva que tinha da janela.
Percebi ainda mais a moleza que se apoderara dela quando em vez de um berro, apenas pediu que fosse resolver o assunto.
Quando cheguei ao local do crime, deparei-me com um casalinho em vias de ir jantar fora. Já não iam. A frente do carro estava desfeita.
Não fiz qualquer comentário às circunstâncias que teriam levado um deles a despistar-se numa rua da cidade e a abalroar três carros três. Apenas me apresentei como dono do Lancia. Foi logo a seguir que, para espanto meu e deles, verifiquei que o carro mais atingido viajara um bom meio metro para a direita mas ficara a um ou dois centímetros do carro da fera. Dei-lhe a volta duas vezes e não vi nem uma beliscadura.
Não eram assim três os carros amassados. Quero dizer, eram. Três contando com o do casalinho desanimado.
Chegou então o dono do que estava mais à esquerda. Com toda a calma lá trocou os habituais elementos com o jovem casal.
Foi então que me perguntou onde é que eu morava. Na minha qualidade de dono do Lancia tinha que morar no prédio ali um pouco abaixo. Foi o que lhe respondi.
Então sabe de quem é este carro - dizia-me assim com jeitos de me querer pôr à prova e apontando para o tal que estava entre o "meu" e o dele.
Não faço ideia.
Não? Mas ele mora no seu prédio. É o poeta!
Huuuuuum - fiz um ar entendido e saí de cena, saudando os circunstantes.
Ela estava a dormitar tranquilamente e eu ainda fiquei mais convencido de que o sexto sentido das mulheres se aplica também ao estado de saúde dos próprios automóveis.


por MCV às 20:01
endereço

ANO XV


EDITORIAL
. Posts recentes

E.N. 263, 2011

Póvoa de Varzim, ...

Portugal, 2008

Um caso clássi...

Memorandum

Portugal, 2006

Vila Franca de Xira, 2...

Portagem, 2011

Foz Tua, 2016

Portugal, 2017

. Arquivos
. Links