Quarta-feira, 4 de Maio de 2005
Quanto à cozinha
Pode não haver nada mais errado do que aquilo que nos parece.
E a mim parece-me que os meus ascendentes do sexo masculino (só do masculino?) não eram lá grandes especialistas em assuntos de temperos. Em boa verdade, poucas ou nenhumas vezes os vi com a mão na massa.
Já o mesmo não posso dizer dos colaterais. Alguns com muita queda para a coisa. Talvez mais para o petisquinho do que para a grande cuisine, é certo. Mas ainda assim, uns expertos.
Ora eu no meio disto, que já não conto com as mordomias de cozinheiras de mão-cheia de outros tempos, onde é que fico?
A bem dizer, não sei.
Pessoas houve que me gabaram os cozinhados. Não só os amigos esfomeados a altas horas da noite, que isso era mais na base da açorda e a esses tudo sabia a pouco, mas também as companheiras de estrada com quem alternei no fogão.
Nunca percebi, é certo, se estas últimas gabavam os meus dotes na tentativa de passarem mais vezes o cace para as minhas mãos, com o inconveniente por elas desprezado de terem que comer coisa que menos lhes agradasse ou se era mesmo a valer - perceber as mulheres!
O certo é que me desenrasco. Iniciei-me naturalmente no petisquinho de sopas feitas com ervas para os coelhos do avô de um certo vizinho e azeite (?) de lata de conserva. Tudo para atamancar as cervejas que bebíamos a acompanhar as cartadas de tarde inteira.
Passei pelas citadas açordas. Ainda que por vezes a escassez de recursos levasse mesmo a especialidades como açorda de molas (de roupa - daquelas de madeira - nem sabem o sabor que davam à coisa!).
Enveredei mais tarde pelos trilhos maritimos, começando por uma tradução ilegal de um certo polvo frito que se comia há décadas na Zambujeira, abastardada por influências de uma prima que interpretava o dito de forma mais livre.
Cheguei ao plano internacional com o célebre, mas já caído em desgraça, frango à Ilha Cristina, depois de uma outra incursão plagiadora do cantado Arroz Chau-Chau Naval da Antiga Casa Faz-Frio.
Agora, que cada vez menos tenho paladares alheios a criticar-me, desleixei-me. Já não manejo a colher de pau com a maestria e o pundonor de outras épocas.
Malditos supermercados que vendem pré-cozinhados.


por MCV às 20:09
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2 comentários:
De Anónimo a 5 de Maio de 2005 às 18:13
A necessidade aguça o engenho. :) Abraço. PS: Vamos a eles, logo à noite!
Manuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 5 de Maio de 2005 às 12:41
"...as companheiras de estrada com quem alternei no fogão..."Eheheheheh!! A necessidade tem um papel muito importante em tudo. Está na altura de voltar á prática:)AbraçoBekx
(http://ejetamos.blogspot.com)
(mailto:ejetamos@netcabo.pt)


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