Sábado, 12 de Março de 2005
A chapelada
As senhoras estavam indignadas e desapontadas.
Havia suspeitas de chapelada na mesa onde tinham estado. De nada se tinham apercebido mas eram implicitamente o objecto das críticas.
Enquanto uma fila de golas altas, camisolas vermelhas, azuis bébé, barbas grisalhas e anoraques, em jornada de luta, mostrava a sua indignação pelo supostamente ocorrido, elas contavam-me o que não tinham visto. Ainda por cima aquela mesa era simbólica, diziam, funcionava no qualquer coisa das mulheres de um sindicato qualquer.
Nessa altura, enquanto mirava a longa fila de manifestantes que pareciam ainda alinhados para votar e a porta da pastelaria dos bolos mais adiante (sim, há ali uma pastelaria que não é dos bolos, é só dos cafés, mesmo ao lado), resolvi-me a comentar que em matéria de chapeladas teríamos também que considerar o que passara há trinta anos, quando a gente que agora protestava punha e dispunha e fazia igual ou pior.
Por qualquer milagre, as minhas palavras foram, embora aceites com indignação e protestos, decisivas. Em menos de um fósforo, desmobilizaram. Creio que no meio de alguma barafustação entre eles.
Nessa altura, o rapaz recém-chegado ouviu ainda os restos da minha diatribe. As minhas tias e sogras pareciam consoladas com o desfecho.
Uma das minhas primas não sabia da mãe. Talvez no clube, no teatro, naquela sala que fica na rua calcetada e imaginária, quase paralela à que sobe do largo da vila.
N. estava na sala às escuras. Na segunda sala, a que tem ao palco ao fundo. Era a única pessoa em pé, com a saia e casaco brancos recortando-se contra o cenário cinzento.
Encontrada a tia que faltava, bailava com N. quando ela me beijou. Retribuí, espantado.
"Uma gaivota voava, voava..." - era isto que se ouvia nos altifalantes.



imagem composta a partir desta e desta


por MCV às 09:25
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2 comentários:
De Anónimo a 13 de Março de 2005 às 06:48
Olha, de facto não passa da transcrição possível de um sonho serôdio, daqueles que estão fixados ao acordar... Se há código - e deve haver - também tenho de o descodificar. :)
Outro beijo

Manuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 13 de Março de 2005 às 06:12
"Mudam-se os tempos...", mas por demasiadas vezes os comportamentos, nem por isso. (sei lá bem porque me lembrei de dizer isto! Foi a primeira coisa que me veio à mente assim que terminei de ler mais um texto-código - eh eh eh - é assim que eu lhes chamo a muitos dos que escreves). Beijo.riacho
(http://alfa-e-omega.blogspot.com)
(mailto:riacho@gmail.com)


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