Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2005
Bacalhau a debate
O comandante do posto cedia de bom grado, talvez à revelia da hierarquia, uma sala para o efeito.
O resto era com o corpo social. Vinho, pão, linguiças, presunto, queijos e uns doces para as senhoras. Tudo em boa quantidade e de boa qualidade.
A sala não ficava à vista da assembleia de voto, era mais retirada.
Não havia qualquer tipo de discriminação política. O predominante PCP partilhava o segredo com as outras forças políticas, menos expressivas. Mas havia uma selecção do eleitorado, ah isso havia. Não era qualquer um que tinha direito ao convite, depois de deixar o voto na urna.
Claro que o pretexto era alimentar os membros da mesa que ficavam por ali o dia todo. E também a guarnição do posto que nesse dia dispensava a cozinha. Mas isso era o pretexto. E qualquer pretexto serve a um bom alentejano para fazer um petisco.
Fechadas as urnas, contados os votos, dado conhecimento dos resultados, seguia o debate.
Comunistas, socialistas, pê-pê-dês e cê-dê-esses batiam-se com a tradicional açorda de bacalhau em certa casa. Só os que conseguiam partilhar uma noite eleitoral com copos de vinho, apostas e as picardias naturais da divergência política. Gente com bom vinho, que era felizmente muita para uma terra tão pequena.


por MCV às 15:09
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