Sábado, 12 de Fevereiro de 2005
A menina das soquetes brancas
Nesse dia fui a dois casamentos ao mesmo tempo.
Para um tinha convite. Era de um velho amigo.
Decorria o copo d'água num daqueles restaurantes com vários salões quando, comigo, alguns resolveram penetrar no casamento do lado.
A surpresa foi grande. O noivo era nosso conhecido. Frequentava o mesmo café que nós. E a parte feminina da festa era mais interessante.
À algazarra inicial que promovemos, sucederam-se alguns brindes aos noivos e a uma quantas convidadas que entretanto se tinham aproximado.
Quando a coisa acalmou, abandonei os companheiros. Sentei-me no muro deserto da varanda, de frente para o mar, que era Julho e fim de tarde. O gin tónico fazia-me companhia e ainda tinha os sapatos cheios de areia depois da nossa revista às tropas em parada, mais abaixo.
Foi ao fim de um bocado que vi as soquetes. Balançando de um muro um pouco mais alto.
Foi de relance.
Mas não tardou que não me virasse. As pernas eram quase de menina, embora se notasse já o tornear das coxas que faz toda a diferença. Uns dezoito, dezanove anos.
"Então hoje viemos de soquetes?"
De réplica em réplica, já íamos na dança.
"Não posso. Está lá dentro o meu namorado!"
"Que a esta hora deve estar à sua procura. Ou intrigado por vê-la a três metros de umas costas de homem, olhando para o mar."
"Acha que se percebe que estamos a falar?"
"Não sei. Não há aqui mais ninguém. O muro é comprido e você sentou-se, ao fim e ao cabo, perto de mim."
"Mas podem pensar que nos conhecemos."
"Quem? O seu namorado?"
"Sim. Ele não conhece a maior parte das pessoas. Eu sou prima da noiva, mas ele não conhece toda a família."
"Ah, seremos até familiares. Primos que se não vêem há anos."
"Isso."
"E ele não teria já perguntado a alguém se me conhece? Ou às minhas costas?"
"Não sei. Deixe lá."

Quanto o António me chamou para nos irmos embora, abri a porta do velho Ford Cortina e recostei-me na napa vermelha.
Mas, de repente, saltei do carro e apressei-me a entrar nos salões, de novo.
Vi-a ao longe, a dançar com um tipo.
Não foi difícil colocar-lhe no bolso (sim, no bolso) do vestido branco um cartão de visita.

Uma semana depois, disseram-me que uma voz feminina tinha ligado, perguntando pelo meu nome completo.


por MCV às 14:33
endereço

2 comentários:
De Anónimo a 13 de Fevereiro de 2005 às 14:45
Ah! Não foi não. Afinal a moça tinha namorado.:)
Beijinho
Manuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 13 de Fevereiro de 2005 às 09:57
São impulsos assim repentinos que nos fazem dar uma rotação (linda) à vida de 360º. Espero que tenha sido este o caso. Beijinho, Manuel.riacho
(http://alfa-e-omega.blogspot.com)
(mailto:riacho@gmail.com)


Comentar post

ANO XV


EDITORIAL
. Posts recentes

Portugal, 2011

Cachopo, 1988

Diz que Dom Fuas salto...

Lisboa, 2009

Rio Tâmega, 2017

E.N. 232, 2000...

Mora, 2017

Portugal, 2017

Portugal, 2017

Barcarena, 201...

. Arquivos
. Links