Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2005
A seca, as campanhas e o estado em que isto está
Talvez eu seja um rabugento. Um entre muitos. Talvez eu tenha ainda incrustadas as memórias de uma certa sociedade pobre e privilegiada.
Pobre, porque os recursos eram escassos. Privilegiada, porque a autosuficiência lhe dava o calo para suportar todos os riscos e seguir em frente. Sem grandes ajudas.
Em que ninguém se queixava, ninguém clamava por ajuda do Estado. Talvez apenas que o Estado os deixasse viver em paz.
Talvez tudo isso não fosse muito social. Talvez que a desprotecção pudesse ter posto fim à geração, nos anos da guerra civil. Lá pelo fim do primeiro terço do séc. XIX. Escapámos por pouco, sempre ouvi dizer. Os meus antepassados e todos os que eles geraram.
Mas não é essa a história de todos nós, pelos tempos fora? Escapar e sobreviver por milagre? Haverá nisso alguma singularidade?
Confesso que tenho pouca paciência para os tempos que correm.
Para os clamores da seca, para os clamores do fogo, das más colheitas, da crise.
Para os clamores dos maus políticos, do sebastianismo, da porca da vida.
O que não significa que não caia na tentação de, às vezes, me juntar a eles. Somos todos humanos e nada coerentes.
Quando ouço falar os políticos, em tempos de campanha e fora dela, já aqui o disse, temo que não exista a pessoa a quem se dirigem.
Temo que ninguém se interesse pelas patacoadas que proferem, pelos ataques que desferem, pela inconsistência do que dizem.
E não abro excepções no panorama actual. Todos me parecem bonecos do mesmo titeriteiro.
Quanto aos receptores, a julgar pela amostra que conheço mais uma vez, não encontro quem se prenda nos argumentos que ouve.
Vejo de um lado os que se riem. Vejo de outro os que jamais mudariam o seu voto em função de discursos. Vejo de outro ainda os que encolhem os ombros e nem sequer escutam. Vejo por fim os que nem dão conta do que por aí se diz.
Falarão para quem, ao certo?
Tenho para mim que um político não pode, não deve ser uma pessoa brilhante.
As pessoas que o são ou não se interessam pela coisa, abrigadas no seu próprio valor, ou rejeitam a comparação com a mediocridade geral. Não estão muito dispostas a navegar em águas de que não se conhece a profundidade. Não estão muito vocacionadas para teorias sem sustentação de nenhum tipo. Deixam-se ir, enquanto a água do barco não chega a níveis críticos.
Para ser um bom político hoje não são as características que forjaram outrora bons líderes que ajudam.
Não sei quais serão as características necessárias. Mas às vezes temo que uma delas seja a de dizer patacoadas para um interlocutor inexistente.

E aqui fica a prova de que, não tendo paciência para lamúrias, também as acompanho.
E de que também digo patacoadas ao vento.


por MCV às 10:42
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2 comentários:
De Anónimo a 3 de Fevereiro de 2005 às 12:54
Pois, por aqui vai o habitual chinfrim.
A falta de classe nos vários campos, ético, intelectual, etc.
E o pior, é que a coisa está de facto a caminhar para o abismo. Mas isso não é só aqui, como todos sabemos...
A ver vamos o que nos reservam os próximos anos.
E sim, é totalmente irrelevante saber quem ganha.
Outro beijo
Manuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 3 de Fevereiro de 2005 às 04:47
É-,e difiícil ter toda a verdadeira percepção do que vai por esses lados, mas dá-me a sensação de que no final de contas tanto vale ganhar um como qualquer outro! Parecem ter todos estudado pelo mesmo livro desrespeitador , egoísta e interesseiro (e mais uns quantos adjectivos negativos). As tuas, tratam-se de patacoadas sem o ser cheias de muito mais visão e coerencia :-)riacho
(http://alfa-e-omega.blogspot.com)
(mailto:riacho@gmail.com)


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