Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2005
História confusa para duas Ofélias1, um carteiro e algumas centenas de queijos

imagem de http://cineclap.free.fr/?n=359

Não, o J. d'A. não é para aqui chamado. A menos que o seja por ser um dos meus melhores amigos, ter jeito para o negócio e ter, tal como eu, protelado o mais que pode a data de ir à forca. Neste último capítulo, de resto, só perdeu para mim, depois de um certo acordo que ambos firmámos e que era uma forma mais elaborada de aposta2.
Ah, e por eventualmente ter uns amigos carteiros. Sim, isso é relevante.
Ora, começando por aí. Pelos carteiros que conheci por intermédio dele.
Claro que quando se tratava de pousar à porta do café, eles não raro desfiavam o indizível: aquela cheia de curvas é do lote 3, 4º D, da Almirante Cândido dos Reis3; a que vai ali com o saco é do Miradouro, nº 13, 2º E.
Posto isto, julgo que nenhum carteiro com volta já batida ignora quem habita em vizinhanças velhas. Tem tudo em base de dados.

Ah, mas o meu amigo ainda é chamado por ter protelado o casamento ao ponto de os pais o terem presenteado com uma casa. A ver se a coisa ia para a frente. Ledo engano.
Foi a garçonnière mais famosa lá do bairro. Já nem se sabia quantas cópias de chaves havia. Eu próprio estive lá sem ter estado e das vezes em que estive, é claro que não estive.

É aqui que entra a primeira Dona Ofélia. Moradora no mesmo prédio já ia para uns 40 anos. Ainda por cima fora ela quem sugerira ao J. d'A., melhor dizendo à família dele, a compra do andar devoluto, visto ser mãe de um dos da banda. Da nossa banda. Mas já casado na época e respeitável pai de filhos.
Ora a Dona Ofélia Madeira não só reprovava as entradas e saídas do rédechaucê como ainda fora obrigada a conviver com um episódico armazém de queijos que o J. d'A. resolvera instalar na fracção do imóvel.
Não eram bem vistas na vizinhança as alegações de um sócio dele segundo as quais tal empreendimento estimulava as poupanças dos afectados. É que ele afirmava, em alta voz, que os lanches dos vizinhos dispensavam o conduto. Só o panito e o cheiro a queijo eram suficientes.
Esta fase coincidiu com uma certa decadência da garçonnière. Por mais encantos de que os amigos do proprietário fossem portadores, tornava-se hercúlea a tarefa de convencer parceiras a partilharem, por muitas vezes seguidas, o ambiente lacticinoso da coisa.
Embora muitas delas tivessem, pela primeira vez, conhecido o significado de rouparia.

Aqui chegados, de declínio em declínio, houve por bem a namorada do J. d'A. apresentar-lhe um ultimato. Lá fomos todos de fato e gravata, está claro.
Quando nasceu o rapaz, o J. disse-me que o melhor era mudar para uma casa maior. Pôs-se em campo.
Em campo também eu estava mas a tratar de outro assunto.
Calhou que os dois coincidissem. O meu assunto comprou a casa do J., sem que eu fosse perdido nem achado.
Chamava-se este assunto Ofélia Moreira. Claro que me fartei de gozar com o prédio das Ofélias.

Mas nada disto seria relevante para respeitar o título em epígrafe se não recuperássemos os carteiros. Ou um carteiro em particular.
Aquele que levava uma carta para uma certa Ofélia Moreira. Para o prédio das Ofélias. Onde havia uma há mais de 40 anos.
Dona Ofélia Madeira abriu a carta. Não estranhou ser em língua estranha. Pediu ao filho que a lesse. Lida a carta, vinda lá dos lados da antiga esfera soviética, por bem achou responder dando conta que não conhecia a signatária, jamais fora ao leste da Europa e que assim estranhava ser destinatária de tal missiva.
Uns dois anos depois, encheu-se de coragem. De envelope em riste, desfeita em desculpas, culpava o carteiro. É que não era, nunca foi seu costume abrir a correspondência alheia.

1 - As senhoras não se chamam Ofélias. Nem Madeira, nem Moreira. Os seus nomes próprios são raros e os seus apelidos raríssimos. Sendo que os apelidos, para além de raros, coincidem no número de letras, na primeira e na última, e das restantes, duas são comuns.
2 - Lembrem-me de fazer um post a propósito.
3 - Suponho que seja rara a terra onde exista uma rua Almirante Cândido dos Reis. Almirante Reis e Cândido dos Reis afinal parecem ter sido duas pessoas distintas.

Esta história é completamente verídica.



por MCV às 16:19
endereço

4 comentários:
De Anónimo a 3 de Fevereiro de 2005 às 12:51
Ora, códigos, códigos, não sei se tem.
É uma história real, toda ela. A única coisa fictícia são os nomes e as moradas.
Mas se são códigos de paixão, ah isso é preciso chamar alguém do ramo que descodifique a coisa...
:)
Um beijo
Manuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 3 de Fevereiro de 2005 às 04:41
Dá a 'ligeira' sensação :-) de que o texto tem vários códigos inseridos. E a culpa foi mesmo do carteiro, não? Um abraço.riacho
(http://alfa-e-omega.blogspot.com)
(mailto:riacho@gmail.com)


De Anónimo a 2 de Fevereiro de 2005 às 13:58
É, isto do Sapo está como a gente sabe.
Obrigado pelas palavras. :)
Um abraço
Manuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 2 de Fevereiro de 2005 às 13:15
Manuel, estás a se superar nos relatos! Apesar das dificuldades de acesso ao teu blog, insisto em visitar-te. Abraços!Nuedos
</a>
(mailto:gatocult@uol.com.br)


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