Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2005
Algumas notas sobre galinhas


Desta vez não é sonho. É apenas a defesa da honra. Das galinhas, claro.
Em primeiro lugar, a declaração de interesses, como é uso:
Sim, fui durante algum tempo professor de galinhas. Sim, infligi alguns castigos corporais às minhas pupilas.
Eu e a minha prima montámos uma escola em casa da minha bisavó. A coisa funcionava sem horários e currículos rígidos mas era basto disciplinada. Conseguíamos afinal dispô-las em filas e colunas, em notáveis exibições de ordem unida.
O galo não era muito de opinião. Tanto não era que suponho que ainda hoje a minha prima tem alguma aversão aos ditos de crista. O certo é que a escola não era mista, por isso o galaró ficava de fora.
Posto que já dei conta do meu envolvimento com tais criaturas, passo à sua defesa.
Dizem para aí que as galinhas não voam.
Com toda a certeza, alguns dos meus leitores são testemunhas de que tal não passa de um vil insulto às galináceas. Pois são aves e voam. Ah, voam.
Lá no monte havia e ainda há uma velha oliveira que o diga.
Dava galinhas em vez de azeitonas. Nos troncos mais altos.
Não é que não desse de todo azeitonas. Dava. Mas as que dava, apareciam no chão e tinham uma textura estranha. Ao esmagamento, não mostravam caroço. Curiosamente, havia ovelhas lá no monte.
Abandonadas as casas, perdida a geração, perdeu-se para sempre aquela ignorância.
Não a ignorãncia que eu ministrava na escola.
Mas a que elas obtinham da mãe-galinha: ignoravam que não podiam voar.
É certo que também ninguém lhes cortava as asas.


por MCV às 21:09
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6 comentários:
De Anónimo a 14 de Janeiro de 2005 às 17:59
Eu de facto não sei se as galinhas apreciam azeitonas. Mas tenho as minhas suspeitas de que a oliveira não dava quase nada. Talvez elas as comessem, talvez as arrancassem.
E estas galinhas embora fossem da mesma família das outras a quem ministrávamos os nossos conhecimentos, eram de ramos diferentes...
Umas ficaram no monte, outras foram para a vila - para a escola, claro.
O mistério está em que as que foram para a vila não voavam.
Ou melhor, deixaram de voar. Tenho uma vaga ideia de, nos primeiros tempos, algumas terem voado para fora do quintal que tinha um muro baixo do lado de dentro mas altíssimo do lado da rua.
Não sei se depois lhe começaram a cortar as penas das asas e se, fazendo isso durante um certo tempo, as gerações seguintes mesmo asadas, já não voavam. É um mistério que permanece...
Quanto à Protectora dos Animais, não me ocorreu que pudessem ler isto... Caramba! Ainda sou preso. :)
Um abraço a todosManuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 14 de Janeiro de 2005 às 11:15
Disciplina... liberdade... Muito bom o texto, Miguel!Nuedos
(http://apeh.blogs.sapo.pt/)
(mailto:gatocult@uol.com.br)


De Anónimo a 14 de Janeiro de 2005 às 09:58
castigos corporais??? é bom que a sociedade protectora dos animais não leia isto! ehehehehehe
Muito bom o texto...
Abraço, GGatodeLisboa
</a>
(mailto:gatodelx@hotmail.com)


De Anónimo a 14 de Janeiro de 2005 às 05:57
Ai as 'azeitonas'... :-)))
Ainda cheguei a pensar que as galinhas lá se empoleiravam para as comerem. Afinal, elas deviam era de estar a fugir da vossa disciplina. Tens um sentido de humor fantástico, Manuel. :-)riacho
(http://alfa-e-omega.blogspot.com)
(mailto:riacho@gmail.com)


De Anónimo a 13 de Janeiro de 2005 às 23:31
O que eu dava para ter uma foto da oliveira com as galinhas nas pernadas... :)
Manuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 13 de Janeiro de 2005 às 22:27
galinhas voadoras...desvantagens da liberdade. :)carla de elsinore
(http://welcometoelsinore.blogspot.com)
(mailto:travessia@hotmail.com)


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