Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2005
No papado de João Paulo I
A sogra dançante


foto do SNIG

Não sei a que propósito vem (veio) isto.
A senhora, em fade out, insistia em dizer-me que não queria que eu tivesse algo a ver com a filha.
Eu dizia-lhe que não, que estivesse descansada. Que nada houve, tinha havido, haveria. Mas ela insistia. Entretanto, em fade in, começava a desenhar-se na minha memória, o beijo. O beijo que feria de morte a minha argumentação. Mas não titubeava. Com ar de escroque, ou talvez não, lá continuava o desmentido. Mas o beijo vinha, insidioso, à memória. Eu desmontava-o, tirava-lhe intensidade, desejo, arrebatamento (não é o que se diz nestas alturas?).
Desconstruía-o e argumentava, num cenário triste, escuro, de cozinha às escuras em dia curto.
Desconstruía-o. Queria que fosse um desbeijo. Que a minha palavra fosse verdadeira. Às escuras, numa cozinha em dia curto.

A festa decorria no quintal, porco morto pendurado na escada de madeira à porta da garagem.
As moças dentro da adega, às escuras. Na minha adega em fim de tarde de dia curto. Sentadas em mesas de café, ali estavam discutindo gillets e saias-casaco.

Na loja, um amigo estrangeiro dialogava com uma estranha.
Uma moça engraçada e estranha, apenas por ser forasteira, apenas por não ser uma cara habitual na minha frente.
Ela falava num inglês que parecia genuíno. Ele com um acentuado sotaque levantino.
E era um caderno o que viam sobre o balcão.
O caderno tinha fórmulas, gráficos, texto.
Ele sorria, provavelmente mais interessado no cheiro dela do que na tese encadernada.
Ela retribuía-lhe o sorriso e eu vendo que "tava o balh'armado".
Meti-me na conversa e perguntei-lhe, a ela, se precisava de ajuda.
Ela disse que sim, que "bem podia usar a ajuda de alguém que soubesse de química". Traduzindo eu aqui à pressa o que ela disse. E que fora ali parar, porque alguém lhe tinha dito que na casa do largo devia haver quem percebesse do assunto. E que parecia que havia festa.
Riu-se e perguntou se eu não a convidava.
Disse-lhe que sim, às duas questões. Que lhe arranjava alguém. Tinha ali a pessoa indicada para lhe dar uma ajuda.
Ela explicou-me o que era. Qualquer tipo de análises que andava a fazer na zona. Queria discutir as amostras com alguém que estivesse dentro do assunto.
E, quanto à festa, disse-lhe que o meu amigo candiano lhe faria as honras da casa.
Ganhei um beijo e uma palmada nas costas.

Voltei ao quintal. Os moços lá estavam, de faquinha em riste, cortando côdeas e trincando o porco. O agarrafão poisado na borda do poço, vejam lá se o deixam cair lá para dentro.
As moças na mesma escuridão de Pisang Ambon e sussurros sobre roupa.
A mesa da doutora estava vazia. Perguntei por ela. Que tinha saído, quase chorona.

Voltou o beijo. Tentava apagá-lo com um apagador de escola. Lá estava na ardósia, ao fundo. Ao fundo da adega, à vista de todos. Os sussurros já não eram sobre cachecóis e blusas, eram a meu respeito.
Corri cá fora. No quintal, não estava. O portão das traseiras estava aberto. O da garagem também...

Muitos anos depois, recordo-me bem das palavras do meu par, na contradança. Não era uma proibição o que recaía sobre mim. Eram nabos da púcara o que elas pretendiam retirar.
Uma sogra dançante.


por MCV às 18:26
endereço

7 comentários:
De Anónimo a 12 de Janeiro de 2005 às 15:52
Minhas caras, meu caro:
Assim ainda me enchem de convencimento...;)
Manuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 12 de Janeiro de 2005 às 15:35
Faço minhas as palavras do Nuedos. O estilo está muito bom. muito bom, mesmo.
Um abraço
GgatodeLisboa
</a>
(mailto:gatodelx@hotmail.com)


De Anónimo a 12 de Janeiro de 2005 às 12:01
Apesar dos esclarecimentos, Manuel, o texto continua impecável. Obrigado!Nuedos
(http://apeh.blogs.sapo.pt/)
(mailto:gatocult@uol.com.br)


De Anónimo a 11 de Janeiro de 2005 às 19:43
Muito obrigado a todos pelas palavras.
Mas é preciso fazer alguns esclarecimentos sobre o texto.
Em primeiro lugar, dias curtos e matanças de porco não se enquadram no papado de João Paulo I (26 de Agosto de 1978 e 28 de Setembro de 1978), pois decorreu no final do Verão.
Em Portugal, é normal que se matem os porcos em dias curtos de Dezembro ou Janeiro.
Ora o que sucede é que o episódio da sogra dançante teve efectivamente lugar nesses dias de 1978.
Quanto ao resto, embora verosímil, é o resultado de um sonho mais agitado, por estes dias.
Em que veio à baila, sabe-se lá por quê, distorcido como é da praxe, o dito caso.
Coisas que não se explicam...
Ah, e o termo "desbeijo" vem de além-mar. Foi-me fornecido a propósito por alguém que brinca, e bem, com as palavras.
Um abraço a todos
Manuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 11 de Janeiro de 2005 às 11:41
Muito bom, Manuel. Estás a se superar! Obrigado!Nuedos
(http://apeh.blogs.sapo.pt/)
(mailto:gatocult@uol.com.br)


De Anónimo a 11 de Janeiro de 2005 às 00:42
Muito bom, Manuel. Até consegui ouvir os risos, os pássaros, a água que devia correr algures. Muito bom. :-)
Um abraço
GGatodeLisboa
</a>
(mailto:gatodelx@hotmail.com)


De Anónimo a 10 de Janeiro de 2005 às 23:49
Ter-se-ía mudado a história (a tua), não tivesse a sogra dançante ter-te afilado com aquela sentença?

:-)

É muito bonita a maneira como descreves os teus episódios. Boa semana.riacho
(http://alfa-e-omega.blogspot.com)
(mailto:riacho@gmail.com)


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