Sábado, 1 de Janeiro de 2005
A fruteira de loiça ou uma história de Ano Novo
Conhecia bem os cantos ao casarão. Visto a aglomeração ser grande pelas salas abertas, escondi-me, bicho do mato, numa sala pequena, do lado do largo.
Homens nas traseiras, carne de porco no quintal, vinho na cozinha.
Senhoras na frente, entre bolos e canapés.
E a miudagem, saltando entre os grelhados, os doces e o jogo da calha.
Mas naquela altura, escondi-me. Era às escondidas.
Encarei com a fruteira de loiça que talvez nunca tivesse visto. Abri uma espécie de tampa e o objecto desfez-se ante a minha pouca habilidade manual. Gomos de porcelana que deviam ter-se apenas com a tampa colocada, desvairaram a cair por sobre a madeira do louceiro.
Aflito, tentei reconstruir o instável puzzle e, assim que o consegui, bem ou mal, raspei-me.
No recanto das escadas que davam para o grande pátio, consegui dissimular-me aos olhos do buscante.
Foi então que ouvi o estrondo.
Tremendo.
Embora tivesse achado o som estupendo demais para a fragmentação da fruteira, imaginava já os pedaços no chão e o castigo que se seguia.
Os gritos que se sucederam é que já não eram a propósito. Por que é que havia alguém de gritar tão alto por causa de uma peça de loiça?
Quando vi a correria, espreitei do varandim sobre o portão. Lá em baixo, no largo, juntavam-se dezenas de pessoas. No meio delas, duas senhoras estavam caídas. A grade da varanda, por baixo delas.
Não, na grade da varanda eu não tinha mexido.


por MCV às 16:34
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3 comentários:
De Anónimo a 2 de Janeiro de 2005 às 13:58
Pois é, amigos. De facto, resultaram algumas lesões para as ditas senhoras. Mas já passaram 40 anos e ainda andam por aí. Nada de muito grave.
Um abraço
Manuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 2 de Janeiro de 2005 às 02:50
Bela recolha do teu passado :-) (sem grande prejuízo para as senhoras, espero).
Um abraço.riacho
(http://alfa-e-omega.blogspot.com)
(mailto:riacho@gmail.com)


De Anónimo a 1 de Janeiro de 2005 às 18:07
Mal o ano começou, e me defronto com tua hilária e bela história. Surpreendeu-me o contista! Obrigado! Vou aguardar as próximas! Abraços do Nuedos.Nuedos
(http://apeh.blogs.sapo.pt/)
(mailto:gatocult@uol,com.br)


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