Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2004
Manhãs e espólios
O sol nasceu hoje no mesmo sítio. No mesmo sítio onde o vi decerto nascer pela primeira vez. No mesmo sítio onde o vi nascer em noites de vela, em noites de festa, em manhãs de tempestade, manhãs de viagem, manhãs de pré-praia. Nasceu enquanto aviões aterravam ao longe, comboios soavam na curva da linha, o bulício (ah, o bulício) dos carros se ouvia lá em baixo.
Nasceu lá hoje, depois de uns dois anos sem que lá nascesse. E, pela primeira vez na minha vida, vi o meu quarto sem a mobília. Entrei nele como quem entra numa ruína. Um espelho a um canto, duas cadeiras, cartas militares e peças desenhadas encostadas a uma parede. Nada mais que mereça destaque. O quarto dos meus pais, o meu quarto, ali estava. Mostrando bem que tudo tem um fim.
Vou a pé, pela antemanhã. Passo pela zona de pós-guerra em que se transformou o centro da vila, da cidade. O murro de Berlinda, como diria um nauta que aqui aterrou há tempos em busca dele. É ali. Ali se construiu o mais imbecil de todos os muros, de todos os murros. Mostrando a imbecilidade de quem o concebeu e a resignação de quem o aceitou.
E é de comboio que volto. Entre as caras que já não assobiam como outrora. Trago o primeiro saco do espólio fotográfico. Nem sei por onde começar. Começo por esta, a primeira que saiu.



por MCV às 08:44
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1 comentário:
De Anónimo a 20 de Dezembro de 2004 às 21:51
Quanta melancolia, amigo.
É só o que consigo te dizer. Lilian
(http://www.lili-carabina.blogger.com.br)
(mailto:lili@hi.org)


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