Segunda-feira, 29 de Novembro de 2004
As condições mundiais, bacalhau a pataco e literatura de cordel
Acabo de fechar a porta, com a polidez possível, a duas senhoras vestidas de bege (será que o bege faz parte da conspiração?) que me pretendiam elucidar sobre as condições mundiais.
Assim que me lembre, apenas uma vez acedi a trocar algumas palavras com estas brigadas evangélicas. Face à minha argumentação conjecturalmente darwiniana, voltaram dias depois à carga coadjuvadas por um senhor de gravata. Empate técnico, como se diz agora.
Nas minhas memórias consta também um certo domingo (seria sábado?) de manhã, em que acordei ouvindo vozes estranhas na sala de estar.
Com curiosidade adolescente, abeirei-me da porta e distingui a voz de meu pai que placidamente argumentava com as senhoras, numa manifestação de disponibilidade para estas coisas, que eu lhe desconhecia.
A questão do fechar a porta, a questão de ter já uma vez cumprido a penitência, como se fosse obrigatória a passagem, ao menos uma vez na vida, por essa experiência de indígena que carece de evangelização, dá pano para mangas.
Desde logo porque a sociedade actual é uma espécie de ditadura do diálogo. Que nos obriga a ouvir e a respeitar as opiniões dos outros.
Ora a verdade é que nem ouvimos nem respeitamos todas as opiniões que nos colocam à frente.
Esse é o primeiro equívoco.
Como dizia há dias a uma blogueira amiga, a espécie humana divide-se em variados tipos, sem embargo de me esquecer de algum:
Os cépticos
Os crentes
Os crédulos
Claro que estas categorias não são estanques. Interpenetram-se.
Mas um céptico será sempre um céptico, um crente sempre um crente e um crédulo só deixará de o ser se descobrir os pés de barro do seu ídolo ou ídolos, o que nem sempre acontece.
É pouco provável que os dois primeiros modifiquem a sua opinião sobre as coisas.
Já o crédulo pode ou não mudar de opinião, consoante o vento. Mas isso normalmente não depende da argumentação alheia, depende mais do ascendente que o outro exerça sobre ele.
Parece assim que qualquer embate de palavras é um mero exercício argumentativo, que pode ou não deixar-nos mais aliviados, mas que seguramente não conduz a lugar nenhum.
Ora isto traz-nos aqui, à cultura dos blogues.
Afinal não ando de porta em porta a apregoar o meu bacalhau a pataco ou a minha literatura de cordel mas o resultado é quase o mesmo.
Dir-se-á que a diferença reside precisamente no facto de não andar a perturbar o quotidiano alheio com toques de campaínha. Talvez.
Mas a verdade é que, invertendo as coisas, procuro as novidades nos blogues que acompanho. E se, muitas vezes, o que lá está escrito me agrada, também há vezes em que me irrita. Outras considero que é um tremendo disparate.
Voltando a inverter, assumo que o mesmo ocorrerá com quem aqui vem ler o que escrevo.
E isso, de alguma forma, interfere com os outros.
Poder-se-á dizer mais uma vez que mais fácil do que fechar a porta é clicar Back ou fechar a janela. Mas há uma opinião escrita, há uma visão das condições mundiais que já foi lida. Mesmo que os meus leitores sejam cépticos, e eu suspeito que a maioria o é, alguma coisa fica. Tal como fica na minha cabeça o que leio com agrado ou desagrado.
Nada de novo nisto.
Mas pela mesma razão que raramente comento nos blogues meus favoritos, também não me apetecia hoje comentar no blogue das senhoras de bege.
Quem paga as favas são os meus leitores.
O mundo está perdido.


por MCV às 16:23
endereço

2 comentários:
De Anónimo a 7 de Dezembro de 2004 às 22:57
eheh :)Manuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 1 de Dezembro de 2004 às 01:47
Perdidíssimo.Santos Passos
(http://santospassos.blogspot.com)
(mailto:santos.passos@uol.com.br)


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