Sábado, 6 de Novembro de 2004
Os tempos e os modos
Nunca exijo coerência a um interlocutor a menos que o veja exigi-la a outros.
E, isso infelizmente, é o pão nosso de cada dia.
Eu já disse aqui que não sou coerente. A única coerência que pressinto é a da minha sobrevivência. Em sentido lato, a dos outros. Dos mais próximos para os mais longínquos.
Nunca me regi por cartilhas, tirei chapéu a líderes, idolatrei figurões. Quem sabe não o venho a fazer?
Mas não o tendo feito até agora, sou pelo menos poupado ao T'arrenego e às lágrimas de crocodilo.

Uma das coisas que observo com curiosidade é a parcialidade disfarçada de objectividade na defesa de certas figuras e no ataque a outras.
Sou muito redutor nestas coisas. Face a determinados conflitos, há sempre a propensão de tomar partido. Nada de novo nisso.
E quando se trata de guerras, acho que vale tudo. Considerações morais à parte, que essas levam a uma discussão infindável. E se as guerras se pudessem resumir ao tipo que quer conquistar a casa do outro sem a ela ter direito (teríamos que ver o que é que isso quer dizer), e à resposta do acossado, também eu não hesitaria em tomar partido, se a coisa se desenrolasse nas minhas barbas. Não vou a tanto quando é do outro lado da floresta. Bem sei que às vezes, em vez das barbas de molho é melhor pegar no extintor.
Não tomando partido, é-me indiferente que se matem criancinhas com mísseis ou com bombas em mochilas. São mortes de crianças. Ponto.
Tomando partido e estando até envolvido na luta, sou como qualquer outro, as minhas valem sempre mais do que as deles.
Agora, não me atrevo é a encadear longos argumentos para justificar a barbárie. Não quero fazer de mim mais estúpido do que o que sou, pois sei que os outros não são estúpidos.
É aqui que estranho (ou talvez não) que se subtraia à história de Arafat o seu passado guerrilheiro.
Confesso que nesta luta, não tenho campo. Há demasiada culpa de terceiros envolvida nas origens desta guerra. Se nos situarmos num plano objectivo, é mais uma guerra. Por território. Baixas de ambos os lados são baixas de guerra, importa pouco se vêm dos céus ou se viajam de autocarro os ventos da morte. Cada um luta com os meios que tem. São assim as guerras.
Mas para aqueles que acham que o terrorismo é uma guerra à parte, que tanto batem no peito quando se cometem atrocidades, que não há terrorismo bom e mau, etc., é bom lembrar a História.
Ela não começou nem hoje, nem na segunda metade dos anos 40, nem há 2000 anos atrás.
E o passado de Arafat é o do guerilheiro que esteve, com outros, por trás da génese de um certo tipo de terrorismo de cariz rácico e religioso, no passado século XX e do qual temos hoje novas versões. O terrorismo não foi inventado nessa época, mas foi seguramente reinventado. Tratou-se de actos de guerra? Pois tratou.
Mas qual é a diferença entre esses actos e os que tanta gente hoje condena?
Eu confesso que não vejo nenhuma.
Como, repito, não vejo diferença entre a criança morta pelo míssil "inteligente" e a que morreu num autocarro por via de uns cartuchos de dinamite ou outro explosivo qualquer.


por MCV às 11:26
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5 comentários:
De Anónimo a 12 de Novembro de 2004 às 17:18
O meu ponto é só um.
Estando eu envolvido numa guerra, serei sempre parcial, aconteça o que acontecer. Nem justifico nem tenho que justificar com argumentos as atitudes que tomar.
Estando de fora e tentando ser imparcial, tenho que ter muito cuidado com os conceitos.
A maior parte das análises que leio, a propósito de qualquer conflito, são sempre parciais. Mesmo quando pretendem não o ser.
AbraçoManuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 11 de Novembro de 2004 às 13:38
Bom, no Iraque os atentados são considerados terroristas porque partem de organizações terroristas. É uma questão complicada a que se coloca. No entanto, a guerra está a decorrer essencialmente contra a Al-Qaeda. É uma verdadeira guerra ao terrorismo. No entanto, as diferenças nos métodos são claras. Os terroristas tanto matam soldados iraquianos e estrangeiros como matam polícias, civis e membros do governo. Raptam e degolam. Penso que se as tropas aliadas tivessem a mesma postura e não se importassem com as baixas civis a guerra já teria acabado. Os terroristas sabem disso e usam-no a seu favor. Daí a dificuldade em estabilizar o país. AbraçoBekx
(http://www.ejetamos.blogspot.com)
(mailto:ejetamos@netcabo.pt)


De Anónimo a 11 de Novembro de 2004 às 12:18
Nem sempre quem lança o míssil tenciona causar vítimas civis. Aliás, muito pelo contrário, quase sempre, deseja que não. Há um esforço para que isso não aconteça, por mais que ele ocasionalmente falhe.

Já quem coloca bombas num ônibus ou numa pizzaria tem como alvo esses mesmos civis. Parece-me diferença suficiente para estabelecer uma diferença crucial entre os dois casos. Quem tem como primeira intenção atingir civis não pode ser comparado a quem está apenas visando atingir combatentes armados e criminosos procurados.Rafael Azevedo
(http://blogico.blogspot.com)
(mailto:rafaeluzt@yahoo.co)


De Anónimo a 10 de Novembro de 2004 às 01:16
Pois é. É esse campo movediço que me intriga. Quando se coloca uma bomba num autocarro, há um objectivo declarado de matar civis. E de amedrontar os restantes.
Quando se lança um míssil ou uma bomba mais "burra", sabe-se que haverá um determinado número de baixas civis. Aí, confesso que não vejo diferença. Como não as vê quem as sofre na pele, desde que tenha oportunidade para isso.
O terrorismo, tal como o entendemos, é o ataque aos civis. Mas nem sempre assim é. Por vezes, ataques como os que são quase diários no Iraque, como por exemplo o que matou dezenas de soldados italianos, também são descritos como tal.
Em última análise, será então terrorismo todo o ataque desferido por tropas não regulares.
Ora quando não existem exércitos regulares de um lado ou quando a desproporção de meios é muito grande, estas situações tendem a ocorrer. Sempre ocorreram.
Se terrorismo é afinal só o ataque indiscriminado a civis, então temos que enveredar por caminhos mais difíceis. Saber se ele ocorre porque mais uma vez não há meios para enfrentar as forças armadas do outro lado, se ocorre porque se considera que ninguém é inocente no meio de uma guerra...
Não faço aqui apologias disto e daquilo. Mas uma coisa sei, como já disse no post, quando alguém se vê envolvido numa guerra, tenha nisso culpa ou não, não se pode esperar que veja as coisas da mesma forma de que os que estão de fora.
E são estes últimos que eu habitualmente não entendo.
Um abraçoManuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 9 de Novembro de 2004 às 11:25
Concordo quase em absoluto com o que está escrito. No entanto, o que distingue um acto de terrorismo de um acto puro de guerra é o objectivo de ambos. Um suicida mata com o único propósito de eliminar civis inocentes. É um pouco diferente de um míssil direccionado a matar um líder ou elemento de uma facção terrorista, que pode ter como consequência a morte de inocentes. Bekx
(http://www.ejetamos.blogspot.com)
(mailto:ejetamos@netcabo.pt)


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