Segunda-feira, 25 de Outubro de 2004
O intelectual de esquerda
Foi há muito. Há trinta anos.
Já não sei como começou o diálogo, naqueles dias de porrada e de jogos de cartas no refeitório do liceu.
Mas o homem, devidamente fardado e etiquetado na incipiente barba rala, depois de algumas considerações sobre símbolos e atitudes, saiu-se com qualquer coisa assim parecida:
"É o fim dos tempos. Já não há mais nada para ser inventado. Já fomos à lua, já temos computadores (helás! - isso ele sabia que já havia), televisões, telefones, aviões, automóveis, já nada resta para ser inventado! O fim está próximo!"
Por alguma razão, esta frase absurda não mereceu comentário, réplica alguma da minha parte. Fica-te lá com a tua teoria que eu vou jogar às cartas, qualquer coisa do género.
Mas o certo é que ficou bem gravada. Durante muito tempo como exemplo acabado da total paragem no tempo, da ausência de sentido crítico, de imaginação, etc.
Hoje, revejo-a e interrogo-me se o homem não teria em parte razão.
É conhecido que à civilização e aos seus avanços, sucedeu quase sempre a barbárie.
E que povos mais evoluídos soçobraram às mãos de invasores com menos engenho.
As estatísticas já há uns anos nos dizem que os povos mais civilizados tendem, com as curvas actuais, a extinguir-se. Basta atentar nos índices da ONU e ver o que revelam.
Nestas coisas de analisar tendências corre-se sempre o risco infantil de só ver a parte da curva que mais interessa. Sei disso. O maior erro das projecções é continuar a curva com os mesmos parâmetros.
Nada nos garante que não haja alterações. Mas não as havendo, a civilização tal como a conhecemos dará de novo passos atrás, como a História de resto nos ensina.
Será de forma violenta? Ou com a paciente definhando numa cama?
O homem teria razão ou sou eu que estou parado no tempo?


por MCV às 20:11
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