Sexta-feira, 1 de Outubro de 2004
Uns copos a mais


Polibruno estava feliz à saída das Caldas.
No fim da semana de trabalho, ocorrera-lhe presentear a esposa com um serviço de couve.
Esperámos todos no carro, enquanto o adivinhávamos regateando preços.
Lá saiu altivo, uma boa meia hora depois, segurando o atilho.
Mal se instalou no banco do carro, desatou a desembrulhar tampa por tampa, tigela por tigela.
Mais para conferir de novo do que para nos mostrar a compra.
Claro que faltava a tampa de uma terrina.
Suplicou meia-volta mas não lhe fizémos a vontade.
O tá bem que soltou soava a soluço.
Mudou a conversa para os copos. Já trazia três ou quatro, só desse dia. Copos com publicidade qualquer um marchava. Insinuava-se junto do balcão mas não roubava nada a ninguém. Tinha portanto conseguido nesse dia os três ou quatro que agora nos mostrava.
A volta era larga. Havia que deixar um para os lados de Alcoentre, outro para os lados de Coruche e só depois a capital, já lá para o lado da meia-noite.
Chegados à zona de Coruche, o passageiro ali destinado entendeu pagar umas cervejas.
Enquanto escorria a cevada pelas goelas, Polibruno demorava os olhos pelas prateleiras de copos. Insinuou-se sem sucesso.
Foi quando reparou na panóplia de prémios pendurada na parede. Em lugar central, um relógio que parecia de cuco.
Polibruno perdia apostas regularmente. Bastou-lhe elogiar o relógio para que o outro lhe dissesse, desdenhando, que o relógio era em plástico bera.
Polibruno achava que não, que era de madeira legítima.
Estava o terreno preparado. Polibruno apostou.
Tirada a prova, Polibruno perdeu.
Que sim, que era uma boa imitação. Mas que, assim sendo, de nada valia. Mas Polibruno ainda fez preço a cada um dos itens da tábua de prémios. Lanternas, porta-chaves, isqueiros, facas, tudo avaliado. Feitas as contas, Polibruno concluiu que valia a pena investir na arrematação global, comprando os furos que faltavam.
Mas foi desimaginado disso pela nossa retirada intempestuosa.
O homem da terra convidou-nos então para um último copo em casa dele.
Depois dos cumprimentos à entrada, fomos conduzidos a uma sala onde pontificava um relógio...
Polibruno já não se deixou surpreender. Afirmou logo que era de plástico.
Não se ficou por aí. Alcançando a cristaleira, dobrou a espinha e arrebitou os olhos para a fila de trás, a dos copos marcados.
Ali mesmo fez preço à colecção. Com essa atitude, acabou estranhamente por conseguir mais dois para o pecúlio.
Saiu triunfante.
As horas já não eram para gente decente andar por aí.
O carro tinha pouca gasolina e as bombas tudo fechado.
Polibruno sugeriu Salvaterra. Nada.
Depois Benavente. Se não houver bombas, vou aos Bombeiros - dizia, puxando dos galões de voluntário.
Assim foi.
Polibruno dormia afinal quando estacionámos no parque dos Bombeiros.
Acordou estremunhado e precipitou-se para fora do carro, levando no colo os copos do dia.
Desastre. Polibruno quase chorou. Logo aqueles dois que lhe tinham dado em Coruche, tão difíceis de encontrar...
Mas lá foi.
Ao fim de uma hora, resolvemos saber da sorte do homem, desaparecido para lá de um portão de quartel de bombeiros.
Lá estava, em amena cavaqueira, junto a um auto-tanque.
Chamou-nos e apresentou-nos ao responsável de serviço.
Julguei nessa altura distinguir um brilho de alívio nos olhos do bombeiro.
Agradecemos e ainda ouvimos Polibruno virar-se para trás, confirmando:
"Têm aqui umas belas instalações!"
A razão da demora tinha sido mesmo a visita guiada ao quartel.
Ainda sugeri uma passagem pelo Colete Encarnado, que era noite da Sardinha Assada.
Mas pensando melhor...

copos daqui


por MCV às 15:00
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1 comentário:
De Anónimo a 1 de Outubro de 2004 às 16:37
Tá bom...continua...

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