Segunda-feira, 27 de Setembro de 2004
O dia em que a guerra acabou
Pois foi. Foi nesse dia mesmo.
Ela ainda estava obrigada a comunicar o seu paradeiro, proibida de entrar na Cortina de Ferro, sujeita a escrutínio nas visitas que recebia.
Nesse mesmo dia, o homem reparou nela. Fazia um friozinho a mais na Praça Pigalle.
Ela tinha-se colocado sobre os ventiladores do metro.
O homem aproximou-se, dirigiu-se a mim e ao R.C., e só depois fez a vénia na direcção dela.
O francês dele era anguloso. Forasteiro como nós.
Que da primeira vez que estivera naquela praça, havia dezenas de pessoas deitadas junto dos ventiladores, pouco depois da guerra.
Quando a vira assim...
Disse que era de um dos países do Leste. Não comentámos o acontecimento desse dia, embora por todo o lado em Paris não se falasse de outra coisa.
Diziam que Mitterand havia afirmado que gostava tanto da Alemanha, que se houvesse duas, tanto melhor.
Mas ele estava mais interessado em nós. No que fazíamos, de onde vínhamos.
Quando lhe dissémos ao que vínhamos, abriu os braços. Que não acreditava.
Estava ali também para a Feira. Carteira em punho, mostrava credenciais. Dizia que eram de jornalista, de funcionário do estado, de diplomata. Vamos beber um copo. Fica para amanhã.
No dia seguinte, lá estávamos. No stand aprazado. Sem ela, que fora ver as modas.
Passámos uma primeira vez e nada do nosso amigo. Uma segunda e nada.
À terceira, foi de vez. Entrámos e perguntámos por ele.
Foi quanto bastou para nos colocarem num reservado, a sós com uma garrafa de scotch.
Mas nada de meninas, como tinha acontecido noutro sítio.
O homem não apareceu.


por MCV às 21:12
endereço

2 comentários:
De Anónimo a 29 de Setembro de 2004 às 01:15
:)Manuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 27 de Setembro de 2004 às 22:24
Seu título me fez lembrar outro, de uma música de Raul Seixas: "O dia em que a Terra parou". Conheces a letra?

Essa noite eu tive um sonho de sonhador
Maluco que sou, eu sonhei...
Com a dia em que a terra parou
Com a dia em que a terra parou


Foi assim num dia que todas as pessoas
Do planeta inteiro resolveram que ninguém
ia sair de casa, como que fosse combinado
E em todo o planeta naquele dia
ninguém saiu de casa, ninguém


O empregado não saiu pro seu trabalho
Pois sabia que o patrão também não tava lá
Dona de casa não saiu prá comprar pão
pois sabia que o padeiro também não tava lá
E o guarda não saiu para prender
Pois sabia que o ladrão também não tava lá
E o ladrão não saiu para roubar
Pois sabia que não ia ter onde gastar


No dia em que a terra parou...


E nas igrejas nenhum sino a badalar
Pois sabiam que os fiéis também não tavam lá
E os fiéis não saíram prá rezar
Pois sabiam que o padre também não tava lá
E o aluno não saiu para estudar
Pois sabia que o professor também não tava lá
E o professor não saiu prá lecionar
Pois sabia que não tinha mais nada prá ensinar


No dia em que a terra parou...


O comandante não saiu para o quartel
Pois sabia que o soldado também não tava lá
E o soldado não saiu pra ir pra guerra
Pois sabia que o inimigo também não tava lá
E o paciente não saiu pra se tratar
Pois sabia que o doutor também não tava lá
E o doutor não saiu pra medicar
Pois sabia que não tinha mais doença pra curar


No dia em que a terra parou...


Essa noite eu tive um sonho de sonhador
Maluco que sou acordei!!!


No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
No dia em que a terra parou...
Eu acordei no dia em que a terra parou
Rafael Reinehr
(http://escreverporescrever.blogspot.com)
(mailto:superjazz7@terra.com.br)


Comentar post

ANO XV


EDITORIAL
. Posts recentes

Póvoa de Varzim, ...

Portugal, 2008

Um caso clássi...

Memorandum

Portugal, 2006

Vila Franca de Xira, 2...

Portagem, 2011

Foz Tua, 2016

Portugal, 2017

E.N. 246-1, 2011

. Arquivos
. Links