Sexta-feira, 17 de Setembro de 2004
A gravata Dei
Como quase tudo o que dizia, era necessário atenção e ouvido fino para perceber a lógica da argumentação.
Mesmo que falasse, vez ou outra, um pouco mais alto e claro. Como quando retorquiu que homem que se preze, tem que de vez em quando esquecer a educação e soltar umas imprecações.
Mas as mais das vezes eram sussurros, monólogos, pequenas pérolas de reflexão ao alcance de quem se detinha a ouvi-lo.
Nesse dia, vinha desengravatado.
Após algumas considerações sobre a tomada de Ceuta, a natação medicinal e a composição química do recheio das mais diversas sanduíches, pronunciou três palavras mais, com os olhos postos nas nuvens:
“A gravata Dei”
Encarámo-nos, na expectativa de mais uma revelação.
Afinal, era sempre com surpresa que o escutávamos.
“A gravata... dei. Dei-a mesmo!”


por MCV às 23:20
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2 comentários:
De Anónimo a 19 de Setembro de 2004 às 22:39
Pois é, amigo.
Essas confusões são uma delícia, por vezes.
Que bom ter mãe com essa idade e nessa forma.
Grande abraçoManuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 19 de Setembro de 2004 às 13:09
Pois é, Manuel
Lembrei-me, agora, da minha mãe. Ela sempre falava de um ditado que ela ouviu, quando menininha, e que chamou a sua atenção e deixou-a, por algum tempo, sem resposta.
Disse-lhe a mãe, num momento em que ele falava muito:
"Fala pouco e bem, e ter-te-ão por alguém".
Menina ainda, não afeita, totalmente, aos trejeitos verbais, ficou a imaginar quem seria o Tertião.
Com o tempo, viu que esse homem não existia.Rsrsrsrsrs!
Em tempo: minha mãe tem 93 anos e está viva e lúcida.
Forte abraço
Fernando CalsFernando Cals
(http://observador.blogbrasil.com)
(mailto:fcals@globo.com)


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