Quarta-feira, 15 de Setembro de 2004
Nunca sabemos


Eu nunca sei até que ponto é que um discurso político é o reflexo das ideias do orador ou o reflexo daquilo que ele pensa que deve dizer.
Sendo que, se é o segundo caso, nunca sei para que receptor ele fala. Convenço-me de que ele também não o sabe.
Vem isto a propósito dos dois casos recentes de invasão de áreas chave do poder e da sua representação, ocorridos em Londres.
Não fossem os intervenientes (nos outros dias da sua existência) pacatos cidadãos, e sim perigosos terroristas e a esta hora haveria mais uma tragédia a lamentar.
E aqui é que bate o ponto.
Todo o discurso político recente na Rússia e nos Estados Unidos, contaminando outras paragens, se deteve na condenação dos seus próprios dirigentes por não terem conseguido conter a ameaça terrorista.
Depois de termos assistido à crucificação de Putin, a propósito do atentado na escola, depois de termos ouvido tudo o que se disse àcerca da forma como se actuou nos Estados Unidos antes do ataque às torres, depois de termos ouvido tudo isso, até parece que há uma fórmula mágica para evitar ataques terroristas.
Pois não há.
O velho aforismo "casa roubada, trancas à porta" é, para mim, o exemplo claro do absurdo.
Particularmente nestes casos em que se corre a tomar medidas para evitar a repetição de uma forma de actuação terrorista, quando se sabe que, com toda a certeza, o próximo passo será outra surpresa.
Não que não se deva dificultar a repetição. O que é preciso é dificultar todas as formas possíveis e imaginárias de causar grandes estragos.
Estou convencido de que há gente a tratar disso. A pensar em todas essas formas e a engendrar maneiras de as evitar.
Mas se ocorrer um ataque em grande escala ou com grande impacto no poder instituído, é apenas porque o inimigo foi mais forte, mais matreiro. Não faltam fábulas a respeito.
E golpes, iremos sofrer mais. Se eles não temem nenhuma das nossas armas, se não têm qualquer receio de avançar, resta-nos estar um passo à frente e tentar detê-los.
Mas estando a surpresa sempre do lado de lá, veremos que nem sempre isso se consegue.
Agora há de facto surpresas como as de Londres que nos levam a pensar que só se olha para as mochilas nos comboios e para as facas nos aviões.
E quanto aos mesmos aviões, na Rússia, a ser verdade o que se soube hoje, parece que qualquer prevenção há-de ser sempre furada pela corrupção instalada.

imagem da CNN


por MCV às 23:40
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