Sábado, 31 de Julho de 2004
A estrada do sul

Em tempos, esta teria sido a altura de rumar ao sul. Em outros tempos ainda mais longínquos, ainda faltaria um mês.
Em tempos, cumprir-se-ia o ritual da pré-travessia em Belém ou no Cata-que-Farás.
Esperar na fila. Mais dois ferries e é a nossa vez.
Depois, as manobras devidamente comandadas para encaixar a viatura no meio dos camiões.
Se era dia de águas agitadas, o mais certo era presenciar um encosto e um espelho partido. E os habituais lamentos.
Uma vez de novo em terra, era ir pela E.N.10 passando pelas terreolas de casinhas baixas até se entrar em estrada aberta, depois do Fogueteiro, e pouco depois se avistar a chama no topo das chaminés dos altos fornos.
Depois havia o entroncamento de Coina, com a respectiva bomba de gasolina e uns armazéns.
Seguiam-se as terras de Azeitão. O café da bifurcação, as caves, a garagem da João Cândido Belo, a subida em recta da serra, a capela lá no alto, e a descida em curvas até se passar pela fonte e se entrar numa sequência de rectas até à cidade do Sado.
Lá estava a Boîte, em grandes letras, à entrada.
Trajecto pelo centro e passagem sob a linha do Sado, praça de touros à direita e já se saía.
Depois, no lugar das Pontes, umas quantas casas e novamente a estrada.
Águas de Moura. Bomba de gasolina com belos arcos em betão e ponte da Marateca.
E.N. 5. Rectas e condado de Palma.
Mais rectas e a várzea do arroz. Sobe-se para Alcácer e desce-se para lá entrar.
Café Sado. A ponte cujo mecanismo levadiço parecia já não funcionar.
E.N. 120. Depois a recta de todos os perigos. Bermas de areia, pinheiros rentes. Muito antes do Chinita e de quaisquer outros pontos de paragem.
Em Grândola, depois da primeira curva em vinte e tal quilómetros, o depósito da água e o Paraíso do Alentejo com as suas bombas de gasolina, que ainda lá estão.
Na 259, ainda se passava por Canal Caveira, também muito antes do cozido aparecer num pátio improvisado, e caso a passagem de nível estivesse fechada, lá se fazia o corta-mato por debaixo da ponte ferroviária, rentinho ao encontro. Barro seco no leito estival.
Mas de Grândola em diante, já era o deserto. Raro era encontrar outro carro na estrada.

Mais uns dois ou três dias e já torrava ao sol. Em praias desertas.

Com os anos, com a ponte, com o aumento do tráfego, as novas rotas desertas de fugir aos engarrafamentos.
Depois da 264 chegar ao Algarve, depois de chegar também a Ourique.
Depois de todas as variantes, depois do velho sonho, tantas vezes ouvido nesses tempos, da ponte do Montijo, depois da auto-estrada finalmente ter passado o cabo das Tormentas, ironicamente chegando aos meus sítios, cinco dias depois do meu adeus, já não vou.
Já não vou para sul.

imagem de



por MCV às 18:03
endereço

2 comentários:
De Anónimo a 23 de Abril de 2005 às 21:35
Que saudades dum tempo que jamais conheci!...gasnatural
</a>
(mailto:pacosta@tap.pt)


De Anónimo a 31 de Julho de 2004 às 18:47
Parece uma descrição da palma das tuas mãos... ficamos a pensar na quantidade de vezes que fizeste esse caminho e... porque não rumas mais a caminho do sul...aq
(http://www.dizertudocomoosmalucos.blogspot.com)
(mailto:aaqq@iol.pt)


Comentar post

ANO XIV


EDITORIAL
. Posts recentes

Vila Nova, 201...

Cascais, 2017

Portugal, toponímia, 2...

Portugal, 2007

Ramal de Cáceres, 2011...

...

E.E.N.N. 263/389, 2007...

Belver, 2014

Lisboa, 2008

Aveiro, 2013

. Arquivos
. Links