Sexta-feira, 23 de Julho de 2004
Objectos
Acho que se aplica isto a todos.
Quando se trata de determinar o que é e o que não é um objecto pessoal, só pairam dúvidas.
Não falo do isqueiro, do relógio, da caneta. Mesmo esses, quando descartáveis, têm estatuto temporário.
Nem sequer da tralha que se mete num saco ou numa mala para passar um fim-de-semana.
Falo de todos os outros que, tendo ou não ocupado lugar num bolso, numa mala ou num saco, não são dispensáveis mas não estão sempre à mão.
Nessa classe, tenho muitos. Espalhados por gavetas, dentro de baús, na mala do carro, em cima de uma estante, guardados em caixas, eu sei lá.
De vez em quando, avisto-os. E é uma festa.
A alguns outros, já perdi o rasto.
Mas quando se recupera algo que julgávamos perdido ou até, o que poderá parecer mais estranho, que pensávamos nunca ter possuído, soltam-se uns demónios.
Catadupas de memórias irrompem dos cantos, soam nos ares, deixam-se tocar na fragilidade do reencontro.
Os que são meus e os que estão meus.
Os que são meus provavelmente até chegarem às minhas mãos foram produtos quaisquer, iguais a outros tantos, saídos de fábricas ou das mãos de um artesão. Nada de memórias por onde andaram.
Já os outros, os outros, que memórias de antepassados se terão extinguido e onde e como?
Aquela cigarreira, por exemplo, que não terá sido verdadeiramente de ninguém? Um objecto que se demorou em gavetas por anos sucessivos e nunca teve dono, ninguém que a colocasse no bolso ou mandasse gravar as iniciais no espaço reservado. A espaços esteve minha e minha nunca o foi. À gaveta voltava. Sempre de alguém que não fumava.
Se morrer de botas calçadas, quais deles morrerão comigo?

(e o sapinho que anda às avessas...)


por MCV às 20:31
endereço

3 comentários:
De Anónimo a 24 de Julho de 2004 às 01:09
É curioso. Isso surpreende-me. Sempre a aprender, não é verdade?aq
(http://www.dizertudocomoosmalucos.blogspot.com)
(mailto:aaqq@iol.pt)


De Anónimo a 24 de Julho de 2004 às 00:26
Descontando o Sapinho que anda brincar com a gente, a coisa vai indo.
Também não sou de grandes desânimos.Manuel
</a>
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 24 de Julho de 2004 às 00:18
Hoje pareces-me contente. Ainda bem.aq
(http://www.dizertudocomoosmalucos.blogspot.com)
(mailto:aaqq@iol.pt)


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