Quarta-feira, 21 de Julho de 2004
Questão de cores


A minha geração é marcada pela particularidade de ser a última a ter as próprias memórias ainda a preto e branco.
Recordo-me da minha infantil pergunta, marcada por um algum cepticismo ignorante, ao ver uma das minhas primas a preparar-se para inserir um rolo colorido numa máquina fotográfica:
"Atã essa taméim dá pa tirar fotografias a cores?"

Dos antepassados que não cheguei a conhecer, as fotos a preto e branco ou a sépia.
Da juventude de pais, avós e tios, a mesma coisa.
Dos meus primeiros olhares para a câmara, o Ilford Pan.
Até grande parte das minhas primeiras tentativas, já com a velha Agfa que afastava de mim a tentação de manusear a Zeiss Ikon paterna, se fizeram a PB.
É pois dessas circunstâncias, da vulgarização que entretanto a película colorida conheceu, que nasce essa marca de separação entre as memórias mais longínquas retratadas em tons cinza e as mais recentes dotadas das cores do mundo. Mesmo que estas outras já tenham em alguns casos passado a jogos de azuis ou de vermelhos.
É quase um mimetismo da memória humana, tão propensa a perder a cor.

Nunca fui grande artista do retrato. Tanto não, que mesmo à força de muitos anos de registos, não me comovo (nem aos outros) com a minha obra.
É certo que entre a Agfa, a Zeiss Ikon depois herdada (e de longe a melhor de todas), a Praktica que mais tarde comprei na expectativa de baixar os custos e a mais recente, abusiva e fraternalmente sonegada Sony de lentes Zeiss, há muita coisa em arquivo.
Mais pelo interesse de trinta e tal anos de recolha, em que as fotos de família nunca tiveram qualquer importância, antes dando lugar a muita estrada como já aqui referi.
E há de tudo, cor, preto e branco sempre mais a gosto e a actual possibilidade digital de fazer umas flores.
Ah, e pelo meio, outra sonegação fraterna, a maquineta de cassettes de 8 mm que o homem parece já ter esquecido e das quais cassettes saiu grande parte das imagens que por aqui aparecem.

Algures, ao longo deste percurso, fizeram de mim fiel depositário de espólios familiares.
Com tanta coisa em carteira, algum dia haverá de sair qualquer coisa do mato.
A ver vamos o quê.
Ah, e sim, muito negativo estraguei eu ao meu pai. Eram fotografias falsas, já se sabe.


por MCV às 20:25
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2 comentários:
De Anónimo a 23 de Julho de 2004 às 13:02
Já ontem te deixei um comentário, mas não publicou. Vamos lá ver se o de hoje fica, ou não. Então, Manuel?!... isso é coisa que se faça a um pai? Das Praktica, lembro-me bem. Eram boas, sim senhor. És tu? Se não és, devias ser. A imagem corresponde às palavras.aq
(http://www.dizertudocomoosmalucos.blogspot.com)
(mailto:aaqq@iol.pt)


De Anónimo a 22 de Julho de 2004 às 23:40
Ora veja... conheço essa adorável face dalgum lugar? (ia dizer cara, veja só...)Lili
(http://www.lili-carabina.blogger.com.br)
(mailto:carabinaridesagain@hotmail.com)


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