Segunda-feira, 19 de Julho de 2004
O tempo e os caminhos
Às vezes, penso que este blogue é mais velho do que é.
Ainda falta quase um mês para o aniversário. Dir-se-ia que partiu das boxes enquanto uma onda generalizada tinha partido da grelha do outro lado dos rails.
Por pensar que é mais antigo, enredado num qualquer referencial de inércia que transforma segundos em séculos para o observador exterior (será ele exterior?), por pensar que é mais antigo, dizia, julgo muitas vezes já ter aqui dado conta de algumas reflexões mais pessoais. Pessoais mas suficientemente partilhadas, creio-o, para que outros com elas se possam identificar.
Indo à raiz, ao H Gasolim de há onze meses, fruto de um verão de sequeiro, em que o H era de Hélder, em homenagem ao camionista desconhecido como o soldado, e Gasolim vinha pelo contrário de um radical mais do que conhecido, indo aí, lembro-me de vaticinar para estas páginas uma vocação igual à do seu autor, a demanda de caminhos, o contacto com lugares nunca vistos.
E a coisa borregou visivelmente nesse campo. Como muitas conversas sem norte, derivou para sabe-se lá onde.
A verdade é que não houve aqui grandes referências à estrada, às suas atracções e aos seus perigos.
Dos perigos, é certo, quase nunca me apeteceu falar. Outros se ocupam disso com mais ou menos sucesso.
A atracção da estrada, no entanto, creio que se ressente desse avultar dos receios. Não que hoje haja mais razão para recear. Pelos vistos não há. Já passámos por anos em que com menos tráfego morriam 2500 pessoas no asfalto.
Mas o ritmo a que se vive não ajuda nada ao desfrute das viagens.
Creio que por aqui, pelo nosso país, pouca gente já experimenta o prazer de ir de A a B só por ir. Mais pelo trajecto do que pelo destino. Pela amostra que conheço, acho que há poucos.
No entanto, as viagens de carro sempre foram para mim motivo de interesse. Mesmo que o destino não fosse grandioso.
Talvez por isso tenha um mapa mental das nossas estradas que se bate com o dos camionistas. Um pouco por todo o lado já deixei pneu. E tenho as minhas preferências. Um dia também falarei disso.
Há anos, ocorreu-me fazer um livro de fotos, estrada a estrada. Já depois disso alguém lançou um sobre uma estrada em particular. Outros haverá que eu não conheça. Para além das publicações que o antigo M.O.P. dedicava às novas construções e melhoramentos.
A primeira foto desta saga tem cerca de 32 anos. É a minha primeira experiência fotográfica e retrata um posto de combustível de que muitos poucos se recordarão. Ficava mais ou menos onde hoje está o muro de suporte do parque de estacionamento do Continente da Amadora, ali onde se cruzavam então a E.N. 117 e a E.N. 249-1 e era da Shell.
A última é a do post anterior. Na área de serviço de Aljustrel. 32 anos depois, no começo e no final de duas viagens para sul.
Em quase nada coincidiram os dois trajectos. É dessa memória das estradas de então que conto falar um destes dias.
Até a minha estrada das oliveiras em que descia para a horta já não existe. Mas o rasto das rodas de há 32 anos ainda permite a passagem. Por quanto tempo mais?


por MCV às 22:18
endereço

2 comentários:
De Anónimo a 20 de Julho de 2004 às 22:51
Pois era mesmo ali onde se cruzavam a estrada de Sintra e a que da Amadora seguia para Carnaxide.
Um dos sítios onde mais se nota a passagem dos anos. Manuel
(http://gasolim.blogs.sapo.pt/)
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 20 de Julho de 2004 às 13:20
Disseste Amadora? Lembro-me da construção do Continente, mas não me lembro do que lá estava antes. Há 22 anos, o meu irmão jogava à bola numa rua da Amadora. Hoje, nem lá consigo estacionar o carro. Nunca há lugar. É assim, Manuel. Mas sabes... há coisas piores.aq
(http://www.dizertudocomoosmalucos.blogspot.com)
(mailto:aaqq@iol.pt)


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