Segunda-feira, 24 de Maio de 2004
Os habituais disparates
Nada disto é, mais uma vez, novo.
Gosto pouco de falar de actualidades, mas há algo recorrente nestas coisas que, aparentemente, não é visto, não é assinalado.
Falo do colapso da estrutura de betão do aeroporto de Roissy.
Há qualquer fenómeno na nossa sociedade, decerto já estudado por alguns, que parece dividir os cidadãos entre os filhos da filosofia grega e os repetidores de argumentos sem sentido.
Uns dirão que é a massificação da comunicação, outros que sempre assim foi e que o que essa massificação faz é não difundir o erro mas ampliá-lo. Sendo coisas diferentes.
Dou de barato que o racionalismo não é tudo na vida. Já aqui o disse por mais de uma vez. Mas continuo convencido de que, tenha ele as bases onde as tiver, falte-lhe a consistência e os dados que lhe faltarem, nos trouxe até ao patamar em que estamos.
E que é difícil (só difícil?) discutir seja o que fôr sem usar lógica. Depois, até podemos discutir (?) a discussão em si, a sua validade, por aí fora...
Retomando.
Independentemente da minha falta de informação, pois apenas disponho dos dados que obtive nas televisões e nos jornais, parto do seguinte conjunto de informações:
Existia uma estrutura em betão do tipo túnel com janelas, em que assentava uma outra estrutura metálica de suporte a vidraças.
Essa estrutura colapsou depois de fissurar.
Suponho (com algumas dúvidas) que o troço que colapsou era idêntico aos adjacentes.
A estrutura estava ao serviço há cerca de um ano.
Ouço depois as habituais lengalengas:
Que a estrutura foi feita à pressa.
Que a data da inauguração prevista foi postergada por mor da falta de condutas secas (?) para os bombeiros, de sinalização e ainda por ter caído um candeeiro.
E que durante a obra, as falhas de segurança do estaleiro eram evidentes.
Isso foi o que ouvi e que li.
Ora isto leva-nos onde?
Leva-nos a um primeiro ponto que é recorrente e esclarecedor: quando acontecem coisas destas, há sempre um sem número de factores irrelevantes mas supostamente negativos que nos é apresentado como decisivo – a falta de sinais, a falta de condutas, o candeeiro caído e a insegurança do estaleiro. Faltou dizer que o engenheiro chefe usava sempre uma camisa negra e que as garrafas de água bebidas pelos operários eram de duvidosa proveniência.
É com esta espécie de argumentação que se pretende explicar o sucedido.
E leva-nos mais longe, leva-nos a ignorar que quando colapsa uma estrutura destas, uma de três coisas deve ter acontecido: ou foi mal calculada, ou foi mal executada ou foi sujeita a esforços para os quais não estava dimensionada.
Dando de barato que não houve um sismo de grande magnitude em Roissy ontem de manhã, que nenhuma aeronave colidiu com o terminal e que não se procedeu a uma demolição propositada da estrutura, podemos eliminar a terceira hipótese.
Ficamos com o erro de projecto ou com má execução.
Aqui faz algum sentido apanhar o sentido das frases soltas que se ouviram – foi tudo feito à pressa!
Ah, pois foi! E não é isso o que sucede hoje em dia em todo e qualquer lado? Que obra pública ou privada se faz hoje sem que haja uma correria desenfreada contra o tempo?
A frase ridícula de alguém que dizia que agora pensava duas vezes antes de entrar num aeroporto poderá ter sido dita por quem reside num edifício construído à pressa, por quem transita por vias feitas à pressa, por quem assiste a jogos de futebol em estádios feitos à pressa...
Tudo se faz a correr. É o sinal dos tempos. Não adianta berrar a torto e a direito, porque quem decidiu isso fomos todos nós. Todos queremos mais produtividade, mais riqueza criada pelas nossas mãos, mais dinheiro ao fim do mês.
Às vezes pagamos caro por isso.
Ainda se há-de descobrir o que aconteceu. Mas de certeza que não foi por não haver sinalização, condutas ou pela cor da camisa do engenheiro responsável que a coisa se deu.


por MCV às 15:37
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