Domingo, 23 de Maio de 2004
Z - À falta de material


Podem, sim. A gente tem pressa no trabalho feito.
E depois, como é que fazemos? Para fechar as portas, essas coisas...
Ah, não se preocupem, o guarda há-de vir aqui. Depois, avisam-no quando saírem...

E assim foi, a tarde caiu. A noite fechou-se, os holofotes lá apontavam para as reparações que iam sendo feitas.
O cansaço acumulava-se, até porque a semana já tinha incorporado outras noitadas.

Ô. Ô. Ô. - era assim a modos que um grito. Uma vaia sem vocativo.
A parte da nave industrial que os holofotes não cobriam apenas tinha aqui e ali um ténue brilho de reflexão. Parda.
Do meio disso, surgiu a figura. Baixa, com uns óculos de massa e um boné de orelhas, que o frio apertava. Não para eles que trabalhavam para aquecer. Um cão pouco mais que minúsculo, acompanhava as botas que podiam ser de elástico. E levantava, orgulhoso ou requerente, o focinho.

Não esperavam já guarda nenhum. Eram quase três da manhã e ainda havia muito para fazer.
A figura surpreendeu-os, de facto.

Então, aqui andam, a trabalhar...
É verdade.
Não me disseram nada.
Não?
Não. Ninguém me disse que vocês aqui estavam. Até podia ter trazido o cão. Ou a arma. Mas nunca solto aquela fera. E não gosto de apontar uma arma a um homem, atão e agora?
Quer dizer que estávamos sujeitos a ataque?
Ladrões... ladrões... atão veja lá. Ninguém me disse nada. Eu é que não quis trazer a arma. Nem o cão.
Pois é, a gente disse ao seu patrão que ia ficar. Ele disse que o avisava.
Mas estão a trabalhar... Se vocês soubessem como os outros aqui penaram... à falta de material. Eles bem queriam trabalhar, ficavam aqui também à noite, mas... à falta de material, o que eles aqui penaram... Vocês têm tudo o que precisam? Não lhes vai acontecer como aos outros, à falta de material...?
Não. Esteja descansado. Não será à falta de material...
Mas está frio! Não têm frio?
Frio? Há lá frio que entre com a gente, homem! Estamos a trabalhar.
Pois eu tenho. Tenho que andar de um lado para o outro. Mas não trouxe o cão. Vocês sabem lá do que aquilo é capaz. Este não. Este coitado. Agora a fera... nem lhe abro a porta do canil. É perigoso. E também não sou homem para apontar uma arma a outro homem, atão e agora?... Mas não me disseram nada...
Pois é, esqueceram-se.
Não lhes disseram para irem ter comigo? É que eu nunca aponto uma arma a outro homem, atão e agora... Também nunca quis conhecer outro homem, atão e agora? Mulheres? Mulheres, já conheci muitas. Agora outro homem, nunca quis conhecer nenhum... atão e agora?
Pois é, faz bem.

Amigo, vamos embora.
Tá tudo pronto?
Tá. Se a coisa correr bem, só voltamos para a semana.
Ah sim? Atão e o que é que pode correr mal?
Pode acontecer que ainda haja chochos para preencher. Só depois do material secar, é que se vê.
Ah sim?
É. Por agora, parece bom. Mas daqui a umas horas, pode ser que apareçam pequenos orifícios, coisa pouca.
Atão e eu não posso ver isso?
Pode. Você é capaz de dar uma vista de olhos e ver se está tudo na mesma? Venha cá que eu explico-lhe o que é que pode acontecer...

Teja descansado. Daqui a umas duas horas, ligue-me.
Tá certo.
Sabe o número?
Então não é o número aqui da fábrica?
É. Mas você faz o seguinte: Dá-me uma letra. Por exemplo Z. Liga e diz Z. Não diz mais nada. Assim eu já sei que é você e digo logo: Sem novidade!


por MCV às 21:00
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