Terça-feira, 11 de Maio de 2004
As pontes de outro condado (I)
Fórmicas de várias cores, mesas de vidro. O básico café modernista.
Não se sabia se aqueles olhos mais antigos tinham pousado ali muitas décadas atrás, vindos das moradias da álea da estação.
Comboios a carvão.
Décadas de copos de vidro, chávenas de louça, colheres de alumínio e aço inox.
Estudantes, militares, esposas. Médicos e engenheiros.
O rapaz contara não mais que dez anos desde que estacionara a primeira vez ao lado da vitrina dos chocolates.
Namoros de olhos. Cervejas, aguardentes. Conversa de chacha.
A mulher pouco mais tempo contara desde que impressionara os circunstantes pela primeira vez. Ruidosa, cativante, desbocada, deslumbrante.
Falava, exaltava-se, ria, discutia.
O rapaz não lhe concedia mais atenção do que às outras peças do xadrez de mosaico hidraúlico.
Duas ou três vezes trocaram palavras. De uma das vezes, ela reclamou um cumprimento. De outra, contra-atacou um dos seus discursos de costumes.

O irmão, o colega do irmão e a namorada do colega do irmão assentavam arraiais pela noite fora, em sábados indistintos, discutindo o que apelidavam de geopolítica, uma espécie de Trivial Pursuit de medronhos, aguardentes de alfarroba, Jack Daniels e gin tónico.
E o colega do irmão que lhe contasse o que era feito da tal irmã, dele colega do irmão.
Pois é. O café fechou. Fechou, não. Acabou. Agora é uma tasca que parece um café. Espelhos, lindos mosaicos cerâmicos 30 x 30 daqueles riscadinhos. Listéis. Sim, foi o que me disse a vendedora na SIMAC. Balcão de painéis de vidro castanho, mais espelhos. Sandes diversas. Pipis. Nunca mais lá fui, o que é feito dela?

O café da bola. D’ A Bola nas mesas para os fregueses. Do balcão corrido de imperiais e tremoços. Licores Beirão.
Ele, o rapaz, explicava a táctica ao colega do irmão. Talvez uma votação no Conselho de Segurança. Mas isso é estratégia. Seja.
Virou-se, transportando o último fino da noite.
Como está a senhora?
Surpreendeu-se com o grito dela. Desbocada. Deslumbrante. És tu?
Majoraram nessa noite o somatório das anteriores conversações.


por MCV às 13:55
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ANO XIV


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