Quarta-feira, 5 de Maio de 2004
O verão de 2000
Ainda me divido entre os calendários agrícola e civil. Mesmo que as ligações ao campo se limitem hoje a presenças espaçadas.
E, por isso, vejo os anos terminarem na época balnear. Quando ela existe.
Quando não acontece, a sensação é a de emendar anos em anos, sem que 31 de Dezembro seja mais do que fim de mês.
Poucos anos passei sem molhar os pés. Mas neste século, só uma vez mergulhei nas águas do Atlântico. Com muita pena minha.
Estou portanto quase em ano seguido desde o verão de 2000.
Em que não tive férias.
Mas todos os dias, quase todos os dias, levantava voo dos complexos industriais da margem sul com destino a uma das minhas praias de infância.
Fui Carlos mais uma vez. Mas por poucos dias, já que a senhoria desta vez acabou por entrar com o meu nome.
Sr. Manuel, já não lhe chamo Carlos. Mas alugou a casa e agora não a aproveita?
Não lhe consegui explicar que sim, que a aproveitava.
Que aproveitava a casa, a praia, as ruas em calçada, as casas velhas, os cafés, a noite.
Que aproveitava as viagens, a auto-estrada, a estrada nacional, o calor alentejano e as melodias que me acompanhavam no banco do Toyota e do Honda. Que encontrei nessas viagens alguns companheiros, cavalheiros da estrada. Aqueles com quem fazemos uma viagem, ora atrás, ora à frente, como dois ciclistas em fuga. Sem picanços, com muita cortesia e ajuda nas ultrapassagens.
Que aproveitava o regresso, às vezes com a neblina das manhãs, o café recém-aberto, a estrada, a auto-estrada, Paio Pires, Barreiro.
Ver os monstros industriais. Assistir à demolição triste de quarteirões fabris. Fotografar esses mundos de cabeça.
Conseguir viver em férias, em fim-de-ano, a trabalhar.


por MCV às 14:51
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1 comentário:
De Anónimo a 5 de Maio de 2004 às 17:26
espero por muitos verões juntos
bjosavoz
(http://arabella.bella.blog.uol.com.br/)
(mailto:avoz@uol.com.br)


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ANO XIV


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