Segunda-feira, 29 de Março de 2004
Fato domingueiro
Um post de domingo, à segunda-feira



Estamos descrentes. Não é com o governo, não é com a oposição, não é com o futebol, não é com o país, é connosco.
A um ateu e agnóstico (há quem defenda que estas duas qualidades não convivem) não há sublime crença que lhe valha. É o meu caso.
Mas não considero que esteja a subsumir a partir do que sinto. Olho em volta e vejo o mesmo. Poderei estar equivocado, é uma forte possibilidade. Mas parto do princípio de que não estou.
E então, porquê?
Porquê esta descrença e este aparente fastio?
Só tem fastio quem está de barriga cheia – dizem há muito alguns.
Mas o fastio por ora fica de parte, vamos à descrença.
Alguns dirão que a queda dos deuses e dos medos é a responsável por ela.
O temer a Deus já não faz parte do vocabulário. Mesmo para os crentes.
O mundo ocidental caracteriza-se hoje pela ausência do medo. Adiante (mas não aqui) se verá se ele regressa ou não. O meu palpite é que não. Pelo menos, a médio prazo e salvo circunstâncias extraordinárias como a ocorrência de pestes ou a previsão de cataclismos de dimensão muito superior aos conhecidos.
Não há medo, não há temor, não há novidade.
E não há sonho.
Grande parte dos povos que constituem a sociedade ocidental vive numa estabilidade sem meta. Os sonhos são os que todos sabem, as coisinhas do costume.
A própria sociedade deixou de prosseguir grandes objectivos. Se é que alguma vez o fez. Mas ao conferir a grande parte dos seus elementos um certo bem-estar, deixou de ter visão prospectiva. Empenhou-se essencialmente numa maior unificação. Talvez levando o carro à frente dos bois.
Ao conseguir um certo bem-estar, a maioria da população anseia por mais qualquer coisa, sem saber o quê.
Ao atingir determinados patamares de conhecimento e de intimidade com os senhores, perdeu o medo, fez comparações e viu esfumar-se o sonho.
Apercebeu-se de que não há uma glória em ser isto ou em ser aquilo.
As próprias metas de descoberta que poderiam potenciar novos sonhos, estão pouco visíveis.
O racionalismo tropeçou na falta de dados e na dificuldade de os tratar, à medida que a precisão exigia mais.
E somos atacados pelos bárbaros, pelos novos bárbaros.
Não creio que estes, por ora, possam causar maior dano.
Mas estou convencido de que vivem num patamar onde os temores e as crenças são caldos que proporcionam o sonho e a vontade.
A vontade deles será acabar com a nossa civilização. Sem saberem muito bem como e porquê. Mas alimentam esse desidério.
Continuo ainda convencido de que o nosso maior inimigo é o sonho. A ausência dele.
Já ninguém veste um fato domingueiro.

imagem adaptada de


por MCV às 17:51
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