Sábado, 13 de Março de 2004
Memória colectiva


De que é que depende a memória colectiva de um povo?
Partindo do princípio simplificado que a memória colectiva é o conjunto de factos e de conceitos que constam da memória da grande parte das pessoas, quer por experiência quer por comunicação, como é que ela se estreita e se alarga?
Não será muito difícil adivinhar que na memória colectiva dos portugueses, até à unificação do último século, com a rede escolar, as comunicações e outros factores como os jornais, a rádio e a televisão, não haveria muita coisa.
Episódios verdadeiramente nacionais como pestes, guerras e sismos seriam a essência dessa memória. Perdida muitas vezes no tempo, que nem sempre a tradição oral tudo transporta.
Se falarmos apenas nas últimas décadas, e descontarmos os conhecimentos escolares, o que é que fica?
Acho que fica pouco mais do que o que passou na televisão.
Julgo não ser necessário ter amplo e fundamentado conhecimento para aqui chegar.
E se isto é verdade, a nossa memória enquanto povo será desta vez filtrada pelas câmaras. Só os factos que merecem (quem decide isso, é outra história) ser transformados na sua tele-imagem ficarão nessas gavetas.
Será que a multiplicação de imagens de acontecimentos conduz ao aumento proporcional dessa memória?
Ou eles acabam por substituir-se nas gavetas e apenas restarão meia-dúzia deles?
O que mais me intriga nisto é apenas uma questão, que até se pode dizer não é de memória colectiva nacional, é de memória tout court:
Tendo eu privado de perto com grande número de pessoas, das mais diversas idades, dos mais diversos graus de instrução, mas tendo em comum a rusticidade, apercebi-me sempre da sua relação com a memória (regional, local, da natureza) ser pautada pela noção de que o mundo não havia começado ontem, nem no dia em que nasceram.
E hoje, cada vez mais, se assiste ao apagar dessa base. A maioria das pessoas acha que o mundo é coisa nova, o conceito mais presente é o da novidade.
Que as televisões o façam, é esperado. Vivem do espalhafato que promovem. Mas se elas marcam assim tanto, a ser verdade o que disse acima, a memória colectiva, não restarão grandes dúvidas de que a surpresa será o pão nosso de cada dia.


por MCV às 18:09
endereço

1 comentário:
De MCV a 3 de Janeiro de 2010 às 22:23
Caro professor:
É um facto. O seu aluno usou o Copy&Paste.
O que aqui está escrito, disparatado ou não, é de minha autoria.
Cumprimentos


Comentar post

ANO XV


EDITORIAL
. Posts recentes

Portugal, 2012

Lisboa, 2017

Sintra, 2016

E.N. 263, 2011

Póvoa de Varzim, ...

Portugal, 2008

Um caso clássi...

Memorandum

Portugal, 2006

Vila Franca de Xira, 2...

. Arquivos
. Links