Sábado, 6 de Março de 2004
Papéis
Sou um ajuntador.
Das mais variadas coisas a que acho piada.
Mas o que mais me fascina são os papéis.
Papéis, essa terrível praga, que chama insectos comedores, acumula pó e alimenta o fogo.
Se há quem leia os clássicos, manuais de instruções, ementas de restaurante e listas telefónicas compulsivamente, eu junto documentos, envelopes, etiquetas, bilhetes, facturas, recibos, boletins, tudo o que vem à rede.
É duvidosa a utilidade de tal congregação. Mesmo que sinta um certo prazer ao contemplar documentos antigos, brochuras, ver a forma como foram escritos, do que tratam, não sei que destino levará tal coisa em tempos futuros.
Meu avô materno tinha o mesmo hábito. Apesar de ter visto o fogo destruir muito papel contra minha vontade, ainda herdei muita coisa.
Pouca de meu pai, mais frugal nas memórias.
Mas o grosso é recolha minha.
Recordo-me de um primo que vivia sozinho enterrado em papéis.
Um dos nossos familiares comuns mencionou-me há tempo esse arquivo que ele supõe conservado em certo monte.
Vi pelo brilho dos seus olhos que o fascínio por esse espólio nos é comum.
Ao que ele supõe, grande parte da história da nossa terra e da nossa família se encontra ali documentada.
Supõe também que ninguém mais do que nós se interessará por tal acervo.
É assim uma espécie de tesouro à espera de ser descoberto de novo.
Receio fazê-lo. A meias ou por minha conta.
Mesmo toda a minha recolha o mais certo é que acabe por ser queimada.
Haverá alguma coisa interessante para um arquivo, uma biblioteca, um museu.
Mas não diviso ninguém que se candidate à herança.
Aliás, todos me encaram como fiel depositário. Recebo de quando em vez fotografias, postais, documentos oficiais já inúteis, limpezas de sótãos.
Quem será o próximo guardião?


por MCV às 15:42
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4 comentários:
De Anónimo a 7 de Março de 2004 às 22:00
Amigo Phileas: É de maravilha que se trata quando remexemos nessas recordações. Fotos, cartas, desenhos, anotações. Agora o filtro do tempo é de facto inexorável, o próprio estatuto de arquivo morto (ou de sótão) já decide muitas vezes do destino de certos espólios, como bem diz. A ver vamos no que dará.
Um abraço. Manuel
(http://gasolim.blogs.sapo.pt/)
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 7 de Março de 2004 às 21:53
Fernando: Uma das coisas que mais me surpreendeu nesse mundo blogueiro foi a aproximação entre estas duas vertentes da nossa língua. E todos ganhamos com isso. Forte abraço também deste seu amigo.
Manuel
(http://gasolim.blogs.sapo.pt/)
(mailto:gasolim@hotmail.com)


De Anónimo a 7 de Março de 2004 às 20:45
Amigo, também muita vez dou comigo a juntar coisas quesei que mais dia menos dia, vão passar a arquivo morto, e inexoravelmente deitado fora. O filtro do tempo encarrega-se de fazer a depuração. Mas é bom ver fotos antigas, uma forma de reviver, não é?
phileas
(http://horizontequaseperdido.blogspot.com/)
(mailto:phileasfogg@netcabo.pt)


De Anónimo a 7 de Março de 2004 às 01:45
Oi, Gasolim amigo,
Cá estou a passear pelas estradas e entranhas do teu blog(blogue). Fascina-me a forma como escreves, num português cuidadoso e diferente do que aqui, no Brasil, se pratica. Sem querer imita-lo, ou a outros blogueiros portugueses que tão bem escrevem, sempre é uma forma de comparar, aprimorar, a nossa maneira de escrever. Creio que a contrapartida possa funcionar de maneira parecida. Troca de informações, quase pode ser dito.
Desejo-te um bom domingo e mando-te um forte abraço brasileiro,
Fernando Cals Fernando Cals
(http://www.cadaserra.blogger.com.br)
(mailto:fcals@globo.com)


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