Quarta-feira, 3 de Março de 2004
A rapariga do carro verde


O carro não era verde. Era preto.
É daquelas coisas que não tem discussão.
J. argumentou com uma possível confusão com outro qualquer carro. Ela retorquiu que não havia nada a dizer. Era uma confusão dele, ponto.
A rapariga do carro verde que afinal era preto julgou tratar-se de uma abordagem propositadamente desastrada. Mas aceitou ouvi-lo um pouco mais.
Depois cortou cerce a conversa. Não lhe agradavam discussões socráticas, foi o que disse.
Só gostava de debater quando se buscava uma solução. Para um problema real. Discutir sem objectivo não fazia para ela o menor sentido.
Reuniam-se sempre com o mesmo fito - analisar um projecto de reconstrução de uma casa numa aldeia. Faziam-no rapidamente e partiam para um jantar. Às vezes faziam duzentos quilómetros para tal. E a discussão não podia ser vaga para ela. Para ele, tanto fazia. Reconhecia-lhe a competência intelectual.
A casa foi construída.
E a discussão com objectivo chegou ao fim.
Ela vendeu a casa sem sequer a ter experimentado, depois de discutir meses a fio a decoração interior.
Tempos depois, J. voltou ao local do crime. Fotografou a sua obra com as cores frescas.
Foi num carro igual.
Que era verde. Deliciosamente verde.

Já não sei onde fui buscar esta imagem. As minhas desculpas mais uma vez.


por MCV às 17:15
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