Segunda-feira, 10 de Abril de 2006
A(s) moça(s) das Caldas
O que há de facto de relevante para dizer, começar a dizer, desse dia é que a minha tia estava defunta. Soube-o não por carta, telefone, aerograma ou de viva voz, soube-o simplesmente.
Mas mais tarde haveria de ouvir a voz lamentosa da minha prima.
Soube também que o vulto da casa do Largo, aquela casa que fora dos meus avós paternos e que agora fora dividida em duas, falecera também. Isto, sim, dito de viva voz por uma prima também parente do vulto.

Mas havia a festa do Lopes. A festa que o Lopes dava para comemorar acho que o pau-de-fileira da fábrica que era dos outros, meus amigos também, mas que não tinham nada a ver com o Lopes, a não ser o facto de ele lhes ter construído a fábrica.

À festa, eu não podia faltar, obviamente.
Quando me ia deslocar a cada um dos velórios, fui interceptado por um outro primo, accionista da inaugurada, que fazia questão que eu fosse verificar isto e mais aquilo. Disse-lhe que não, que era amigo do Lopes e confiava nele. Se ele tinha alguma queixa, que a fizesse directamente. Eu lá estaria, depois, se ele quisesse, para dar opinião para os dois ouvirem.

E a coisa prosseguiu, sem mais delongas, a caminho da festa.
Havia grupos e grupos. Não sei por quê, as pessoas dividiam-se como dizem que o fazem nos congressos partidários. O grupo de Évora, o grupo de Cabeção, o grupo do Escoural, o grupo de Estremoz, o de Borba, o de Elvas e o mais decisivo, claro, ainda que o não soubesse então, o das Caldas da Raínha.
Da festa toda, por junto e atacado, lembro-me de termos saído para ir ao velório da casa do Largo e de lá a coisa se encontrar assim distribuída: daquelas salas à esquerda de quem entra, uma era de senhoras e tinha um tapete de Arraiolos no chão e sofás verdes de aeroporto.
A seguinte era de homens e escura. Uma versão aumentada da minha velha mesa de cozinha de lá trazida no tempo antigo, ocupava o centro. À volta, os homens sentados. Apenas reconheci um. Aos outros, todos mais novos, retirava-lhes o parentesco pelas feições.
A sala do fundo, a que corresponderia grosseiramente a antiga casa de jantar, era a câmara ardente. O vulto encontrava-se depositado numa mesa idêntica à atrás não descrita (depois direi como é a minha – a dos meus avós – velha mesa de cozinha, mas digo já que é escura) com a diferença de que, na parte central, um entalhe permitia que o vulto descansasse não sobre a mesa mas num recesso dela. Estava coberto integralmente por o que parecia ser um tecido de veludo grosso, azul acinzentado escuro, quase de reposteiro.
Reconheci nessa roda, pois os homens distribuíam-se de igual forma à volta da mesa, o mesmo indivíduo da sala anterior. Perguntei-lhe por dois nomes, dos donos da casas em que se subdividia agora a antiga morada de meus avós. Respondeu-me que estavam provavelmente a descansar ou na festa da fábrica. Fiquei mais descansado.
Recuei para a posição da sala feminina, onde apesar de tudo ainda reconhecia algumas caras, as que me haviam acompanhado e outras mais.
Foi então que reparei que havia uma abertura na parede norte que permitia olhar para a chamada zona baixa da casa. Uma zona onde ficava a grande sala e de onde se acedia depois, subindo novamente, a um quarto de costura e, por outro lado, descendo mais um pouco a um quarto que nunca percebi muito bem para que servia, mas onde me deixavam sempre estender a minha tenda.
A minha familiaridade com a casa foi questionada pela Isabel. Eu espantei-me que ela não soubesse, não se lembrasse, de que aquela casa fora dos meus avós. Disse-lhe quais mais tinham sido deles, ela só se lembrava da que fora mais tarde de um tio meu.

De volta à festa, havia forte animação, já com sequelas combinadas para o dia seguinte. Eu já estava adstrito a uma delas, que metia um chibo.
Acho que foi mais ou menos na altura em que estava o Lopes a explicar-me do chibo que elas passaram à nossa frente. Quem são? – perguntei-lhe. Das Caldas.
Confesso que não me veio à cabeça perguntar-lhe que raio fazia ali um grupo de moças das Caldas. E a razão era simples, o grupo era encantador e eu fiquei embasbacado.
O Lopes chamou-as com a bruteza habitual, nicknamed Porthos, portesidade.
Elas aproximaram-se cheias de sorrisos. E ele: Aqui o Manel diz que vocês são muita boas.
Elas riram-se, claro. Eu não me desfiz. Mas reparei e bem no olhar dela.
Depois de dar mais duas voltas ao casão, falando com este e com aquele, tropecei outra vez no grupinho.
Disse-lhes então que tinha total confiança no Lopes, tudo o que ele dizia era verdade. Tinha o meu primo accionista ao lado, claro.
Continuei com mais copos e linguiça.
A coisa deu-se quando tive a consciência de que andava com os olhos à procura dela. Pior. Quando a alcancei, dei-me conta de que me fixava também.
Dei um salto como se estivesse sentado num muro. Ela riu-se. Já não nos largámos pelo resto da festa.
Dizia eu lá atrás que da festa lembrava-me disto e daquilo. É mentira. Só me lembro mesmo dela. E do que se seguiu.
Ela disse-me então que já sabia que eu no dia seguinte ia ao chibo. Era pena. Mas talvez nos encontrássemos depois.

Ora e o que se seguiu conta-se de uma pe(r)nada. Eu e a Chica chegámos a casa quase à mesma hora. Não sabendo eu que ela andava por ali, fiquei entusiasmado ao vê-la a fazer o caminho do muro, para entrar pela porta das traseiras. E, com a maior das naturalidades, fomos para a mesma casa de banho. Perguntei-lhe onde é que ela ia dormir, enquanto ela descobria uma magnífica perna direita. Mas corrigi. Perguntei onde é que não íamos dormir. Começámos a percorrer os quartos. Quase todas as camas ocupadas. Ela lembrou-se do quarto onde costumava dormir, como se fosse uma descoberta brilhante. Eu disse-lhe que os novos donos tinham derrubado aquela ala, mais uma barbaridade, já que vinha pelo menos do século dezoito. Depois, de repente, lá veio a habitual incomodidade com o facto de ainda ocuparmos a casa, depois de ter sido vendida. Passou-me quando vi uma cama livre...

Chegados do chibo, passando pelo topo sul do Rossio, por cima da Tendinha, onde fica aquele hotel com a designação Ritz e sua imponente escadaria que rivaliza em altura com o Teatro Nacional ou talvez com os Estaus, no topo oposto, lá estava a minha prima, chorosa.
Parámos, eu e o João e mais dois ou três que a não conheciam tão bem, para a consolar um pouco. Por toda a praça cintilavam os anúncios luminosos armados nos telhados.
O porteiro disse qualquer coisa sobre estarmos sentados nas escadas. A minha prima disse que era hóspede e ainda mais uns impropérios e que ele fosse mas é ver dos assobios para os táxis.
O porteiro encolheu os ombros e virou costas, descendo a cartola.
E assim ficámos ali a carpir as mágoas, a curtir os copos e a olhar para a praça.

Quando finalmente nos dispusemos a retirar, ela recolhendo e nós na certa, a caminho de qualquer bar, avistámos o grupinho a atravessar a praça, perto daquela pirâmide de vidro que arremeda não a do Louvre mas uma das fontes da Plaza El Pilar.
Verifiquei que os meus companheiros também se entusiasmaram. Beijámos as moças e a minha, a quem beijei no fim, disse: Granda pontaria! Mas eu calculava que os apanhássemos a esta hora. Olha, aproveitámos e fomos ver o filme do...
Agarrámos nelas e fomos para a tal discoteca em poço. A das portas à Get Smart. Já não duvidava que ela era a mulher dos meus sonhos.

No dia seguinte, uma arruada qualquer fez-me sair dos carris mais uma vez. Uns copos sabe Deus onde e o mesmo paramento na escadaria do Ritz, a acabar a ronda. A minha prima chorosa, recortada contra as traseiras do quartel do Carmo.
Eu mais de olhos pregados na praça do que qualquer outra coisa. A pensar em dois dias seguidos de oportunidades perdidas.
Nada.
Quando nos levantámos, íamos todos de monco caído.
Já na estação, enquanto em vez de subir, descíamos as escadas, divisámos o grupo a sair de trás de um daqueles pilares revestidos a mármore.
Não cheguei a cumprimentar as outras. Nem ela os meus amigos.
Fomos de mão dada por ali acima, e na gare, até ao fim do cais. Inventámos aí um banco para nos sentarmos.
Disse-lhe que ou era para sempre ou não era nem mais um minuto. Ela abriu muito os olhos e concordou. E que devíamos partir imediatamente para sul.
Eu repeti e ela disse que não, baixando os olhos.
Perante o meu quase terror pânico, abraçou-me e disse que eu tinha passado o teste.
Vá lá um homem perceber as mulheres os sonhos. As mulheres de sonho. A mulher dos seus sonhos.
Isso. Vá lá um homem perceber a mulher dos seus sonhos.



por MCV às 09:55
endereço

4 comentários:
De Anónimo a 14 de Abril de 2006 às 02:56
Este excelente texto mostrou sua pessoa em nova perspectiva, Manuel.

[Confesso que cá e lá demandou o dicionário ou o chutômetro para o brasileirês. Mas, certamente, vingar-me-ei disso].

Abraço.Ordisi Raluz
(http://ordisiraluz.zip.net)
(mailto:ordisi@uol.com.br)


De Anónimo a 10 de Abril de 2006 às 11:34
Obrigado, caro amigo. Tenho saudades da Estação do Rossio. Se calhar, é por isso que sonho com ela. Abraço
Manuel
</a>
(mailto:h.gasolim.ultramarino@gmail.com)


De Anónimo a 10 de Abril de 2006 às 11:14
Saúdo-o pelo brilhante texto.
(E a estação, no estado em anda, parece um pesadelo.) Cumpts.Bic Laranja
(http://biclaranja.blogs.sapo.pt)
(mailto:biclaranja@sopa.pt)


De Anónimo a 10 de Abril de 2006 às 11:14
Saúdo-o pelo brilhante texto.
(E a estação, no estado em anda, parece um pesadelo.)Bic Laranja
(http://biclaranja.blogs.sapo.pt)
(mailto:biclaranja@sopa.pt)


Comentar post

ANO XVII
EDITORIAL
. Posts recentes

Mem Martins, 2008

Setúbal, 2006

Cachopo, 2014

Quem sabe?

Estação C.F. do Oriente, ...

Mundo ocidental e o re...

Método II

Método

Lisboa, 2020

Peste

. Arquivos
. Links