Terça-feira, 23 de Março de 2004
Paixão seguindo São Romão (II)


Sentiu o costumeiro arrepio quando o primeiro solavanco do comboio deu ordem de marcha.
Ia despedir-se do último dos homens do seu sangue.
Absurdamente, transportava consigo um caderno preto e a máquina fotográfica.
Alternava entre a tinta e os raios de luz para registar as impressões fortes da jornada.
A tristeza do objectivo, a beleza da paisagem tantas vezes percorrida e a tanta luz diferente, que notas lhe mereceriam?
Ou seria pela ilusão de uma mulher na ponta da linha?
Na ponta da linha, presa a que estranho feitiço?
Gostava que este comboio se mantivesse assim, com poucas alterações desde o tempo em que o tomara pela primeira vez, recordando os criados de branco chamando para a segunda leva de bife com mostarda.
Isso não se mantivera.
Mas ficara o alumínio canelado, as portas de correr, o cheiro metálico.
E logo os combinava com a imagem da mulher com a qual partilhara nas vésperas uma primeira cumplicidade arrebatadora e clandestina. Agitava-se.
Poucos companheiros de viagem.
Altas vozes, afectadas por sotaque algarvio.
Um certo cheiro de casa.


por MCV às 09:46
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