Segunda-feira, 22 de Março de 2004
Paixão seguindo São Romão (I)
Outra vez os semáforos a compasso na rua deserta.
Na manhã morna e azul, ouvia claramente os disparos electromecânicos e avançava na onda verde.
Nem vivalma.
Ao chegar à praça, ouviu o longínquo toque d’alvorada vindo do outro lado do mar.
Se não é um mar este rio...
Do convés, ao olhar para montante, não adivinhou que exactamente quatro semanas depois, traria consigo para sul tudo o que lhe importava. Por sobre aquela ponte ainda não atravessada e com a qual sonhava desde menino.
E ela lá estava, recortando-se na luz crua da manhã.
À popa, o estandarte nacional transportou-o para mais um episódio recente do fim do Império.
Distinguia claramente a bandeira das quinas lado a lado com a do Cruzeiro do Sul recortando-se no perfil do cargueiro retirante.
Na fotografia, o espectro dessa massa metálica povoada de gente sob o sol do Equador.
Em terra, entusiasmou-se com algumas velhas locomotivas que posavam para ele, entre ervas secas e cheiro de manhãs.


por MCV às 00:05
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