Segunda-feira, 15 de Março de 2004
O livro
Nunca lerei todos os livros que reuni.
De herança, os mais de entre eles. Comprados, muitos.
Houve um no entanto que não herdei nem mais o vi.
E é desse que sinto a falta.
Comprá-lo não posso. Não existe. Não está referenciado em catálogo algum.
Só existe na minha memória e porventura na posse de poucos, muito poucos mais.
Decerto esquecido em sótãos ou em segundas filas de estantes recônditas.
Poucos, muito poucos se lembrarão dele.
Talvez o tenham desprezado como eu um dia.
Talvez não se lhes tenha aguçado a curiosidade ao ponto de o quererem perceber.
Não o compraram com toda a certeza. Foi-lhes oferecido tal como o exemplar que conheci.
Para que é que alguém quer um livro que apresenta uma teoria há muitos séculos comprovadamente errada?
Ninguém se apraz com erros grosseiros.
E os que gostam de os analisar não souberam da sua existência.
Um livro ao nada. Nunca existiu.
Senão na minha memória.

Mas com o livro, outras memórias.
Todas as memórias do mundo, de mosaicos hidráulicos desenhando um padrão, de mesas à sombra entre flores, de vinhos variados em tardes estivais.
De uma tardinha, um encontro fatal.
De ver franqueada a porta de todos os dias por um vulto juvenil encadeante e logo ali sentir o perfume que descia sobre as coisas.
Das batalhas inevitáveis que travámos com o resultado previsível, o esquecimento. Como o livro que se guardava de nós (de mim) entre as paredes iniciais, nos esquecemos (me esqueci).
Nem se fale já da viagem estonteante no verão de ananases por rectas derretidas onde as cobras se confundiam com ondas de calor.
Nem se mencione a louca noite em que as dunas nos alijaram a queda fatal ou a desvairada procissão de febre que desenhámos a eito e à revelia dos demais.
Sequer a jornada ao local secreto, a que poucos, muito poucos se atreviam então.
Não há nada para recordar senão o livro.
Nunca o li de fio a pavio, era só aquela inquietação no título, e o folhear desesperado à procura do erro fatal. Com a pressa dos anos pueris.
E só eu sei onde ele ficou.
Provavelmente não soubeste sequer que ele existia, apesar de estar sempre ali à mão.
Não o imagino nas tuas mãos de menina.

Vê-se agora que de nada me esqueci.
O livro talvez ainda lá esteja, entre gente que não faz a menor ideia do que possui.


por MCV às 17:13
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1 comentário:
De Anónimo a 21 de Março de 2004 às 05:35
Beleza, amigo Manuel!
Sensibilidade e emoção; beleza, mesmo!
Abraços
Fernando CalsFernando Cals
(http://www.cadaserra.blogger.com.br)
(mailto:fcals@globo.com)


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