Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2004
Não resisto ao bolo folhado
Quantas vezes será necessário ouvir uma frase a um dos nossos antepassados para que ela nos fique na memória?
A resposta é evidentemente imprecisa. A cada qual a sua.
Mas serve esta frase, tantas vezes ouvida a um dos meus avós, quer na primeira pessoa quando se ria de si próprio, quer na terceira quando falava em geral das fraquezas do espírito e do corpo, para acentuar a minha impotência face à vontade de comentar isto e aquilo.
E o que me apetece comentar hoje é a nossa (a minha evidentemente e a dos outros) absurda necessidade de racionalizar a política.
Parece ser próprio do homem usar o que designou de razão para desenvolver técnicas primeiro e ciência depois.
Já se sabe que da ciência pode nascer mais técnica ou não.
Mas pelo que se sabe também, ou parece saber-se, primeiro apuraram-se técnicas e depois fez-se ciência. Pode sempre argumentar-se que na base da técnica há sempre ciência. Ciência tout court. Galinha e ovo.
Voltemos.
Uma das necessidades da vida de hoje é a de opinar sobre os factos, sobre as decisões, sobre a qualidade delas e de quem as toma.
E inevitavelmente, racionalizamos as coisas.
Sucede que a política nada tem de racional. E quando tem, quando aspira a ter, mostra a história que os resultados são catastróficos.
Algumas correntes de pensamento falam hoje de uma substituição do racionalismo positivista por uma escola do consenso.
O racionalismo seja onde fôr que lhe encontremos as bases, serviu e servirá, assim o julgo, para que desenvolvamos as ciências e as técnicas.
Já é pouco provável que se aplique na política. Onde é que está hoje o pensamento político estruturado e dito científico? Não se tratou de mais um equívoco histórico?
Uma das frases que mais me aborrece ouvir é esta: "Já não se pensa assim!"
Então pensa-se como? O pensamento terá modas? Confundimos o pensamento com as teorias demonstradamente erradas?
Será porque "já não se pensa assim", que os grandes da antiguidade se tornaram menos certeiros? Mesmo que, aqui ou ali, tenham engalinhado com certas questões e à volta delas opinado erradamente?
Alguns verão quantos erros cometemos na apreciação das coisas na nossa época.
A questão não é, nem nunca pode ser, a de pensar.
É e continuará a ser as ferramentas que se utilizam e os erros que se cometem.
Se já ninguém usa um ZX Spectrum para programar em Basic, isso não significa que se tenha deixado de programar.
E se uma máquina falha a chegada a Marte, isso também não faz com que a exploração não avance.
Desculpem-me o desabafo, mas tal como o meu avô, não resisto ao bolo folhado.


por MCV às 00:14
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