Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2004
Ainda os elementos
Seis meses depois


Hoje é o dia dos seis meses aqui.

Amainava então ligeiramente a fúria do calor.

O país ardia como um pau de fósforo.

Já se ouviam as habituais vozes e os habituais disparates.

No meio dos comentários, um ou outro com visão larga. Mas nenhum desses mereceu a atenção devida. Só os disparates se propagam como o fogo, já sabemos.

Os poucos que chamaram a atenção para a invulgar sequência de dias muito quentes foram ridicularizados.

Os poucos que chamaram a atenção para o facto do fogo ter ultrapassado facilmente auto-estradas e ribeiras eram submergidos pela exigência de aceiros e de outras prevenções.

Os poucos que falaram inicialmente na pouca preparação dos corpos de bombeiros urbanos para a tarefa de combater um fogo florestal foram atacados.

É certo que a altura não era a indicada para baixar a moral das tropas. Um erro crasso fazê-lo nessa altura. Mas agora pode-se falar.

Pode-se dizer que o número de dias consecutivos com temperaturas altas foi anormal e que essa foi a causa-mãe das coisas.

Pode-se dizer, a crer no que veio publicado nos jornais, que muitos dos fogos foram obra de mão doente ou criminosa, em muitos casos reincidente. É a velha questão entre liberdade e segurança. Não se pode na maior parte das vezes ter as duas.

Pode-se dizer que muito do combate foi feito, abnegadamante é certo, por gente que pouco conhecia os locais onde se encontrava. Mas isso é uma inevitabilidade em circunstâncias semelhantes. O que é necessário, e já se viu de outras vezes que não existe, é um comando com todas as competências e conhecimentos.

Se continuarmos a insistir só na tecla da limpeza das matas, que é importante, mas tem que ser bem feita, e em outras do género, vai arder tudo de novo, porque não se percebeu de facto nada do que aconteceu.

E, por último, o fogo é também necessário. Não nos esqueçamos. É necessário e muitas vezes inevitável. Se cai sobre o arvoredo uma trovoada seca de dimensões tão grandes como aconteceu no dia 2 de Agosto, o que é que se pode fazer?

E, nos sítios inacessíveis, escarpados, em alturas em que os aviões não podem lá chegar, não é a única coisa possível, o deixar arder?

Vai acontecer muito pior um destes anos, essa é a única certeza.

Imagem do IM


por MCV às 23:39
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1 comentário:
De Anónimo a 17 de Fevereiro de 2004 às 02:48
agora, é aqui que devo vir para ler-te? esse passa a ser o oficial?
beijos
///^..^\\\arabella
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