Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2004
O poder dos “alimentos”
Há alguns anos, o paradigma da vítima dos elementos surgiu-me à frente na forma de uma velha mulher que gesticulava e invectivava o mar.
Não que fosse esposa ou mãe de náufrago. Era o mar que lhe ameaçava a casa.
Talvez que em outras épocas o espectáculo fosse o mesmo. Agora é fortemente amplificado e difundido.
É assim frequente ver gente a insurgir-se contra a falta de medidas para travar a água, o vento e o fogo.
Toda a vida o homem se arriscou face aos elementos. Construiu junto aos rios, ao mar, sob o risco de quebradas, debaixo de vulcões.
E pagou por isso, um dia.
Os exemplos são imemoriais.
Já não serão agora os deuses que dão a ordem aos elementos, mas são os outros, sempre os outros, que não lhes fazem face.
Há uma espécie de culpa que não pode morrer solteira se o mar avança, se o fogo estala, se o vento ruge.
E o que é pior, leva-se a coisa a sério.
Decidiu-se que o mar não há-de comer as costas, que o fogo não há-de queimar as árvores, que o vento não há-de destruir o que lhe aparece pela frente.
Vejo sempre estas decisões com estranheza.
Gostamos muito de nos imaginarmos senhores dos elementos. Mas é um ledo engano.


por MCV às 21:06
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