Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009
O desastre do Rápido do Algarve

O que me deve ter levado a interessar-me por este caso terá sido a obnubilação a que foi sujeito pelo tempo.
Um dos mais mortíferos acidentes da história ferroviária do país do qual não consegui encontrar afinal uma única referência durante anos até que alguém escreve um artigo numa revista e me proporciona datá-lo.

Seriam cerca das 16h15m do dia 13 de Setembro de 1954, quando o comboio 8012 que partira de Vila Real de Santo António às 13h13m com destino ao Barreiro descarrilou entre o apeadeiro das Pereiras e a estação de Santa Clara – Sabóia, entre os km 260 e 261 da Linha do Sul. Era composto por uma locomotiva, um furgão, três carruagens de 3ª classe, um vagão-restaurante e duas carruagens de 1ª classe1.
Resultaram deste acidente 29 mortos confirmados pela CP – os números dos jornais variam entre 29 e 34 – e um número de feridos da ordem da meia centena.
De acordo com as primeiras impressões, o acidente teria ocorrido por descarrilamento da locomotiva, numa zona de curvas e contracurvas. Esta, ao tombar para a esquerda e a ficar travada abruptamente na trincheira, terá propiciado que a segunda carruagem esventrasse a primeira, causando aí grande parte das vítimas. As carruagens de 3ª classe iam com lotação esgotada.
Há um pormenor curioso nestas circunstâncias. A linha corre aqui quase paralela a uma ribeira, uns vinte metros abaixo. O local em que se deu o acidente é dos poucos em que há uma barreira entre a linha e o declive para a linha de água, à esquerda do sentido da marcha do comboio. Foi nesse talude que a máquina tombou e se segurou.
O impacto foi pouco sentido nas carruagens de trás, que não chegaram a descarrilar, o que não deu de imediato a verdadeira proporção da tragédia a quem nelas seguia, só tendo consciência da sua gravidade já apeados ao verem a colisão entre as duas primeiras carruagens.
Dado o local ser ermo, os socorros foram pedidos por passageiros do próprio comboio que se deslocaram em cada sentido pela linha, chegando às estações mais próximas, onde deram o alarme.
A notícia levou naturalmente o seu tempo a propagar-se. Mas, segundo informações que recolhi, terá chegado não muito tempo depois à feira de Odemira onde havia grande aglomeração de gente, o que terá concorrido para que muitos carros de particulares se tenham dirigido para o local.
Populares das terras mais próximas, Pereiras, Sabóia e Santa Clara, gente dos montes em redor, terão sido naturalmente os primeiros a chegar.
O grosso dos socorros chegou pela ferrovia. Da Funcheira (km 218), primeiro, um comboio com operários. De Beja (km 154), depois, um comboio de socorro com médicos e enfermeiros, que só terá chegado ao local ao sol posto, mais de três horas após o desastre.
Mais tarde, já de noite, um comboio ido de Faro e outro do Barrreiro, que partira desta estação por volta das seis da tarde.
Chegaram também entretanto de Monchique socorros por estrada. O acesso à zona faz-se pela 266 (entre os km 17 e 18 ou pelo ramal de acesso às Pereiras, com dois quilómetros e meio de estrada velha e duas ribeiras para transpor), a partir de Monchique (a 24 km) e pela 123 e 266 a partir de Odemira (a 38 km). Sendo que por esta altura estava ainda em construção a ponte sobre o rio Mira em Santa Clara, sendo a passagem do rio feita em condições precárias.
O primeiro comboio de evacuação dos sinistrados abandonou o local com destino a Beja já de noite, tendo chegado àquela cidade perto da meia-noite.
Foram entretanto levados por estrada alguns feridos para o Hospital de Portimão.
Os mortos foram transportados para a Estação de Sabóia, onde foram depositados provisoriamente.
Os sobreviventes que se dirigiam a Lisboa chegaram ao Terreiro do Paço perto das 5 da manhã.

A última história que ouvi a este respeito mencionava a estranheza dos circunstantes face a um meu conterrâneo que, tendo escapado com ferimentos mais ou menos ligeiros, se dedicou a dar conta do farnel enquanto não era transportado ao hospital.
Há sempre quem, no meio de uma desgraça, repare nestes pormenores.
E há sempre alguém como eu que os publica.

Bibliografia:
Rogério Guinote Mota; “A tragédia do Rápido do Algarve”; O Foguete - revista da Associação de Amigos do Museu Nacional Ferroviário, 10, 3º Trimestre de 2004
Diário de Lisboa, 14 e 15 de Setembro de 1954
Diário Popular, 14, 15 e 16 de Setembro de 1954


1 Rogério Guinote Mota; “A tragédia do Rápido do Algarve”; O Foguete, 10, 3º Trimestre de 2004



por MCV às 05:57
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4 comentários:
De Bic Laranja a 2 de Fevereiro de 2009 às 23:27
O verbete, como o compôs, dá uma noção muito clara do abismo nos meios de socorro entre hoje e 1954. Mas hão-de ser sempre poucos. A busca de socorro nos dois sentidos é ideia tão simples e nunca me ocorreu. A primeira ideia que me veio foi que não havia telemóveis, imagine! Ainda bem que explicou.
Procurou os elementos na hemeroteca ou vinha tudo no 'Foguete'? É de lá a imagem?
Cumpts. :)


De MCV a 3 de Fevereiro de 2009 às 03:00
De facto, há um abismo entre uma coisa e outra quanto aos meios de socorro.
Embora, no caso das inundações de 97 no Alentejo, onze anos e pouco atrás, o socorro tenha sido igualmente muito demorado e pessimamente organizado.
Na época, já era utilizado no Caminho de Ferro de Benguela um sistema de comunicação ferroviária que, pela descrição feita pelo jornalista, consistia em aproveitar um cabo de comunicações que corria paralelo à linha através de um vulgar telefone de grampo.
E havia, claro, o rádio-telefone.
Tudo isto li na hemeroteca. O Foguete inclusive.
A imagem é mesmo do DP.
Abraço


De S. a 8 de Fevereiro de 2009 às 01:36
Por acaso em Ourique senpre ouvi a história de alguém que lá morava que se deliciava com o farnel enquanto as equipas de socorro actuavam... Essa pessoa, que conheci bem, já morreu há uns anos, nunca me confirmou nem desmetiu esta história.
No entanto, era alguém por quem eu tinha a maior estima, consideração e amizade apesar de ter mais 40 anos do que eu.
Abraço amigo e alentejano,
S.


De MCV a 8 de Fevereiro de 2009 às 04:07
Coincidências estas!
Falaremos com toda a certeza da mesma história.
Abraço


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