Sábado, 22 de Agosto de 2009
La mer

a banda sonora poderia ser esta

Como habitualmente, nesse último de todos os verões, o meio-dia do sol ainda nos apanhava à procura do primeiro café, talvez do terceiro cigarro, ainda alheados pela frescura das paredes seculares, da canícula que soltava o bafo pela porta assim que a entreabríamos. Ainda indecisos entre Vila Nova, o Malhão, Aivados ou Oliveirinha.
Deu-me para ligar o rádio, vá lá saber-se por quê.
A princípio, pareceu-me a coisa disparatada. Depois, ouvi alguém dizer que uma tripulação de um qualquer voo confirmara ter avistado uma onda de grandes dimensões (há sempre uma tripulação algures que confirma as coisas mais bizarras).
Isto de ondas de grandes dimensões é sempre uma questão a esclarecer – qual é a grande dimensão de uma onda? O comprimento? A amplitude?
As ondas do tipo maremoto têm sempre comprimentos de onda enormes e pequeníssima amplitude em relação com o comprimento. Já as ondas formadas pelos fenómenos meteorológicos são de pequeno comprimento de onda e de amplitude da mesma ordem de grandeza do seu comprimento.
Ora o que é visível na praia é a amplitude da onda. Dificilmente se avista da costa um tsunami a aproximar-se até que, ao atingir águas menos profundas, a amplitude da onda tenha uma variação positiva e comece a destacar-se a sua crista.
Uma onda devida a vento normalmente não ocorre isolada nem com as condições meteorológicas que se verificavam em tal dia.
Achei a coisa bizarra e assim que o tempo foi correndo e os noticiários invariados, desmontada a coisa pelo decurso, fui auscultar a opinião no café da vila.
Havia até apóstolos do fim dos tempos. O eclipse há pouco mais de uma semana e agora isto. E era 1999, esse ano de conjugações tão terríveis.
Saboreei aquelas inquietações talvez antevendo que seria o último verão ali.
Não me recordo já se foi para a Oliveirinha que fomos. Só que estava um belíssimo dia de praia.
Só nos lembrámos da coisa, já noite, quando parámos em Colos para meter gasolina e na televisão do café ao lado das bombas se via uma imagem da dita onda.
Era curiosa. Mas quantas vezes não se vê coisa parecida em iguais condições atmosféricas?
Faz hoje dez anos. E era Domingo.



por MCV às 11:58
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